O Karatedō é composto por “prática” e “teoria”...

Quando alguém inicia o treinamento de Karatedō[1] se depara com um mundo novo… com uma nova sociedade.

Nesta nova comunidade, existem regras pré-estabelecidas para que haja ordem, organização, boa convivência e respeito entre todos os membros que ali estão. Tais regras são válidas para todos os que frequentam o dōjō[2], seja ele um iniciante, um aluno avançado ou um instrutor... tenha ele a faixa branca ou a faixa preta em torno da cintura.

Neste mundo novo, cheio de regras, de etiquetas e cerimoniais, os praticantes encontram algumas barreiras que devem superar, entre elas: uma cultura diferente, formalidades atípicas, etiquetas “estranhas”, respeito a hierarquia, conceitos orientais, enfim... coisas alheias ao nosso dia a dia. Porém, dentre todas as novidades apresentadas aos shoshinsha[3] (também mukyū[4]), acreditamos que o maior de todos os impactos que se tem, logo de imediato, seja o idioma.

O Karatedō, como está “configurado” hoje, foi “padronizado” no Japão e por isso está impregnado pela cultura deste povo. Sendo assim, utilizamos formalidades, cerimoniais, etiquetas, conceitos e termos ou vozes de comandos japoneses durante as aulas.

Então, para que estas barreiras sejam transpassadas, paulatinamente, fica aqui uma dica aos kōhai[5] (e aos não tão novos assim)… estudem o Karatedō. E quando falamos em estudo… não nos referimos unicamente as prática das técnicas… mencionamos “literalmente” em estudo teórico que, quando há seriedade, no que se faz deve acompanhar o desenvolvimento técnico ou prático. 

Por quê estudar? Porque, infelizmente, as questões teóricas relativas ao Karatedō são, de uma forma geral, abordadas muito superficialmente... às vezes nem mesmo são abordadas, ou pior ainda, o caso mais comum são abordadas de forma leviana... sem o comprometimento necessário.

Muito treino, muita competição, muito suar o Karatedō-gi[6]… e para tudo isso, pouca ou nenhuma fundamentação teórica. Não que treinar, competir e suar o Karatedō-gi não seja importante... ao contrário, de fato o são. A questão que se coloca é que o estudo teórico é da mesma forma tão importante e imprescindível.

É preciso, sobretudo, por parte daqueles que estão ensinando, retomar a antiga prática conhecida pelos japoneses, como Bunbu-ichi[7], ou seja, dar a mesma importância a prática e a teoria... para tentar amenizar a deficiência teórica existente especialmente nos dōjō ocidentais.

Nunca é tarde para (re)lembrar ou aprender que o “todo”, o 100%, do que conhecemos como Karatedō é composto por “prática” e “teoria”, ou seja, fica fácil entender que quando se negligencia o estudo teórico, se pratica apenas a metade, ou 50%, da arte.

Uma das principais barreiras que impedem a transmissão de conceitos corretos é o fato de que muitas pessoas preferem justificar um erro... muitas vezes com outro erro... a ter de mudar para uma forma diferente da habitual.
“Pior do que não saber é fingir que sabe.” (Mário Sérgio Cortella)
Em nossa vida como Karatedō-ka[8], assim como em nossa vida pessoal, é necessário ter humildade. Porém, em nossos dias há uma grande confusão entre humildade e subserviência.
“Humildade é diferente de subserviência. Uma pessoa subserviente é aquela que se dobra a qualquer coisa. Uma pessoa humilde é aquela que sabe que não sabe tudo, é aquela que sabe que não é a única que sabe, é aquela que sabe que o outro sabe o que ela não sabe, é aquela que sabe que ela e o outro nunca saberão tudo que pode ser sabido. [...] A humildade é a capacidade de saber que só é um bom ensinante quem for um bom aprendente. [...] Se não formos bons aprendentes, não conseguimos ser bons ensinantes [...] não conseguimos ser pessoas que atuam na área de formação de pessoas [...].” (Mário Sérgio Cortella)
Sendo assim, seja humildade... “abra sua mente”… estude, pesquise, questione e treine arduamente... o espírito, a técnica e o corpo… primeiro para aprender e, por consequência, para ter o que ensinar.

Inaugure a partir de hoje, uma "Nova Era" em sua vida... a “Era do Não Sei”... pois esta é a melhor expressão que existe para, criar inovação, reinvenção, inovação, etc.... 

Não se conforme com explicações “metafísicas” sem sentido. Se não sabe algo não tenha vergonha de perguntar, se não achou a resposta que queria não deixe de procurar. Lembre-se: “Sempre há alguém que sabe mais que você”… não importando o nível de conhecimento em que se está ou que se pensa estar. Reforçando... tenha dúvidas, pois quem não tem dúvidas torna-se prisioneiro do mesmo. 
“Gente que não tem dúvidas não inova, não cresce, não consegue ir adiante. Gente que não tem dúvidas fica tão somente com um grande passado pela frente. [...] Quem não tem dúvidas fica estacionado.” (Mário Sérgio Cortella)
Embora possa parecer algo obvio, cabe lembrar que os Sensei[9] são seres humanos, não são “deuses” ou algo semelhante. Portanto, toda a informação que for transmitida por eles pode e deve ser questionada. Embora o questionamento não seja uma ferramenta a qual sejamos motivados a usar, não há melhor forma para trazer confirmação, ou não, a respeito das informações que recebemos.

Contudo, não confunda questionar com desrespeito e, por isso, tenha o cuidado, a delicadeza, de fazer suas perguntas de forma respeitosa. Não há necessidade e não se deve “ferir” o sistema hierárquico do Karatedō.

Quando receber uma informação “x” vá às pesquisas, em diversas fontes, para confirmar ou não a veracidade da mesma... agindo desta forma, se fortalece o conhecimento e se cria bases e fundamentações para aquilo que está sendo, em um primeiro momento aprendido, e posteriormente ensinado.

Um verdadeiro Sensei aprende todo dia, com tudo e com todos, sendo assim... ficará agradecido pela correção da informação errônea, quando for o caso, e passará a ensinar de forma correta... isto é assim, porque um verdadeiro Sensei é humildade... virtude sobre a qual já falamos anteriormente.

Obviamente todo mundo precisa de referências, de pessoas que tenham tido experiências nas mais diversas áreas do comportamento humano e que através destas experiências possa ajudar no processo de formação, seja em Karatedō, seja na vida, daqueles com os quais convivem. Porém, é necessário ter a consciência e o cuidado para que não se faça destas referências, destas pessoas, um porto onde se fica ancorado, mas sim que se utilize tais fontes de experiências como raízes de onde se retira o alimento para crescer.

Uma reflexão de meu amigo Joséverson Goulart que eu gostaria de compartilhar:
“Não há a menor sombra de dúvida que os modelos de transmissão de ensinamento variaram muito em poucos anos. Conceitos que até então eram “leis fundamentais inquestionáveis” [...] foram superados por outros conceitos mais evoluídos. 
Porém, no mundo do Karatedō, parece que esta evolução ainda não se fez sentir em todas as escolas ou mestres mais antigos e o modelo de “avanço didático” ainda está a ser combatido por aqueles que se recusam a ver o óbvio na frente dos seus olhos. 
[...] Formas incorretas de transmissão mascaradas de falsas filosofias orientais não contribuem em absolutamente nada para a evolução no sentido correto do ensino do Karatedō ensinado nos dias de hoje. 
Ser “macaquinhos de imitação” não é o que se espera de um instrutor, não importando o Dan[10] que este possa ter, pois o instrutor é elemento que deve “instruir” outros seres humanos, com a responsabilidade que o cargo acarreta.
As pessoas primitivas tinham tendência à veneração daquilo ou daqueles que desconheciam, porém na sociedade atual temos fontes de pesquisa e desenvolvimento intelectual necessário para eliminar qualquer misticismo inerente às artes marciais. 
A questão que se coloca é: “Por quanto tempo isso vai ser assim para um seguimento considerável de instrutores?” 
Torna-se bastante claro que só podemos evoluir a partir do momento que temos a consciência de que podemos questionar, perguntar, procurar respostas, afastando-nos do comodismo e de desculpas […]”. O questionamento traz o estudo e a pesquisa. O estudo e a pesquisa trazem o conhecimento. 
[...] O estudo do Karatedō, ou das artes marciais num sentido geral, não é um privilégio, mas sim uma opção.” (GOULART, Joséverson)
Justificar erros, mentalidades fechadas e antiquadas, falta de estudo, falta de pesquisa, falta de questionamento, falta de prática, explicações metafísicas, endeusamento de pessoas e ou de entidades, falta de humildade, abusos de poder hierárquico, criação de falsas filosofias orientais, imitação de pessoas... enfim, comodismos em geral devem ser combatidos e banidos por todos aqueles que se dizem Karatedō-ka.

Para encerrar, uma última reflexão... 
“Há três caminhos para o fracasso: não ensinar o que se sabe, não praticar o que se ensina, e não perguntar o que se ignora.” (São Beda)
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Referências:

ANDRETTA, Denis Augusto Cordeiro. Shoshinsha. Disponível em: http://groups.google.com/group/andretta-no-kenkyushitsu;. Acesso em: 18 de Maio de 2009.

BERNARDO, Alexandre Pinheiro; at al. História da Educação Física: Karatedō. Rede Metodista de Educação do Sul (IPA). Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 2007.

GOULART, Joséverson. As fases do conhecimento. Jōji Monogatari. Disponível em: http://jojimonogatari.blogspot.com. Acesso em: 27 de Novembro de 2011.

GOULART, Joséverson. Bunbu-ichi. Disponível em: http://judoforum.com/blog/joseverson/index.php. Acesso em 20 de Novembro de 2006.

GOULART, Joséverson. Bunbu-ichi. Disponível em: http://groups.google.com/group/andretta-no-kenkyushitsu/. Acesso em: 2 de Fevereiro de 2011.

GOULART, Joséverson. Descomplicando o simples! Jōji Monogatari. Disponível em: http://jojimonogatari.blogspot.com. Acesso em: 27 de Novembro de 2011.

GOULART, Joséverson. Karatedō Nyūmon: Introdução ao Caminho das Mãos Vazias. Disponível em: http://judoforum.com/blog/joseverson/index.php. Acesso em 20 de Novembro de 2006.

GOULART, Joséverson. Kyū, Mukyū ou Shoshinsha? Jōji Monogatari. Disponível em: http://jojimonogatari.blogspot.com. Acesso em: 27 de Novembro de 2011.

GOULART, Joséverson. Requisitos de ensino. Disponível em: http://jojimonogatari.blogspot.com.br/2011/11/descomplicando-o-simples-03.html. Acesso em: 20 de Novembro de 2011.

GOULART, Joséverson. Meu mestre disse que… Disponível em: http://groups.google.com/group/andretta-no-kenkyushitsu/. Acesso em: 2 de Fevereiro de 2011.

GOULART, Joséverson. Sobre a “Faixa Branca”. Disponível em: http://judoforum.com/blog/joseverson/index.php. Acesso em 20 de Novembro de 2006.

GOULART, Joséverson. Sobre a “Faixa Branca”. Disponível em: http://groups.google.com/group/andretta-no-kenkyushitsu/. Acesso em: 14 de Julho de 2009.

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Notas:

[1] Karatedō [空手道] – Via, Caminho das Mãos Vazias. 
[2] Dōjō [道場] – Lugar (onde se pratica o) Caminho. 
[3] Shoshinsha [初心者] – Principiante, iniciante. 
[4] Mukyū [無級] – Sem grau, sem classe. 
[5] Kōhai [後輩] – Júnior, mais novo, mais recente, etc. 
[6] Karatedō-gi [空手道衣] – Roupa para o Karatedō. 
[7] Bunbu-ichi [文武一] – Literatura e militarismo são como uma única coisa. 
[8] Karatedō-ka [空手道家] – Especialista em Karatedō.
[9] Sensei [先生] – “Aquele que nasceu antes” ou “aquele que começou antes”. Também Professor, Doutor, Mestre. 
[10] Dan [段] – Grau, rank, nível. 

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