O verdadeiro significado da faixa preta

Atualmente, no ocidente, de uma forma geral, a faixa preta é vista como um “grande nível”, como o “resultado do aprendizado para lutar”, como “uma recompensa outorgada aquele que sacrificou muitas horas da sua vida disciplinando sua mente e fortalecendo seu corpo, como “um símbolo de perícia” (NISHIYAMA, Hidetaka, 2008). 

Contudo, estas formas de pensar colocam a faixa preta como um objetivo do treinamento marcial... nada mais longe da realidade. Tais conceitos, distorcidos em nossa sociedade, fazem com que os ocidentais sejam induzidos ao erro no que diz respeito ao verdadeiro significado da faixa preta. 

A faixa preta nunca foi, não é nem nunca será um fim a ser atingido. E quem diz que atingir a faixa preta é o objetivo do treino marcial está completamente errado ou, se não estiver errado, não está dizendo a verdade. 

Em primeiro lugar, vamos tentar entender o sistema de faixas pretas antes de atribuirmos importâncias indevidas a cada graduação. 
No Japão nem tão antigo assim, o sistema de graduação dividia-se em faixas branca, marrom e preta. A faixa branca era para iniciantes, a faixa marrom para quem já dominava o básico e a faixa preta para quem se iniciava na arte… é por isso que a primeira faixa preta recebe o nome de Shodan, literalmente “nível inicial”. E por que “nível inicial”? Porque era na primeira faixa preta que uma pessoa iniciava seu estudo e entendimento efetivo de uma arte marcial. A expressão Shodan indica, de uma forma simples, que o estudante domina os fundamentos da arte e agora está preparado para receber um treinamento mais avançado. (GOULART, 2008)
Analisando o que foi dito, sem muito esforço mental, conclui-se que se estamos “iniciando” na arte quando recebemos o Shodan, definitivamente ele nunca será um “fim” a atingir. 

Este conceito errado de “faixa preta como um fim a atingir” é que leva um número elevado de praticantes a desistir de suas artes quando atingem o “primeiro Dan”, pois atingiram o seu fim, tornaram-se faixas pretas e agora podem relaxar no treino, quando na realidade é neste ponto que deveriam estar “iniciando” na arte. 


O mestre Nishiyama afirma, acertadamente que 
Inicialmente o sistema de graus (Dan) foi estabelecido como uma série de níveis com os quais o estudante podia avaliar o seu progresso. Esta escala de valores tem provado a sua eficácia como grande motivador do estudante, mas também tem originado alguns problemas.  
Em primeiro lugar existe internacionalmente uma grande disparidade de critérios. Um sistema de graduação universal deveria ser formalizado da mesma maneira que um centímetro é igual a outro em qualquer lugar do mundo.  
É preciso também compreender que esta escala de valores consiste em examinar as reações humanas, e devido às diferenças existentes em cada pessoa é difícil estabelecer regras únicas.  
O Jūdō e o Kendō têm suas regras internacionais para avaliar, e isto se deve ao fato de suas origens são exclusivamente japonesas e estas regras nasceram junto com cada uma destas artes marciais.  
O Karatedō ao contrário tem várias escolas diferentes, cada uma das quais possuem suas particularidades e seus sistemas de exame separados.  
Quando o Karatedō alcançou uma dimensão internacional, vários países receberam estilos diferentes cada um deles com suas próprias regras e isto permitiu que indivíduos sem escrúpulos criassem suas próprias organizações outorgando a faixa preta a estudantes não qualificados que por sua vez decidiram abrir suas próprias escolas e entregar suas próprias faixas pretas ao mesmo tempo em que buscavam promover-se para obter benefícios econômicos.  
O resultado final é que muitos faixas pretas constituem um mau exemplo e produzem uma má imagem do Karatedō.  
Muitas pessoas dizem que assim como existem as casas de câmbio para as trocas de moedas, deveria haver centros de reavaliação onde os faixas pretas pudessem ser reavaliados, embora a lista dos candidatos alcançasse a grossura de uma lista telefônica. 
Hoje em dia vê-se uma “corrida aos Dan”… todos querem mais e mais Dan, por isso é comum encontrarmos por aí academias onde se outorgam faixas pretas em um curto período de tempo de treinamento com nítidos objetivos comerciais. Nestes locais, os “responsáveis” são conscientes de que no pensamento ocidental a faixa preta é vista como “um fim a atingir” e que todos querem se graduar rapidamente em detrimento do estudo e entendimento das artes que praticam. Assim surgem aqueles programas fantásticos, e bem pagos, de “torne-se faixa preta em um ano”. 

Exemplo disso são pessoas portadoras de muitos Dan que não sabem o significado de conceitos, tais como: Shugyō, Bunbu-ichi, Ikken-hissatsu, Zanshin, etc… o que só demonstra que a faixa apenas é um marco de “estudo”, mas não indica o conhecimento efetivo. 

Já vimos afirmações do tipo: “Em um clube sério, a faixa preta se alcança após se ter de 3 a 5 anos de treinamento assíduo e duro sob uma orientação competente”. Não obstante, não há como precisar um período de treinamento específico para receber uma faixa preta, pois cada pessoa é única e, da mesma forma, tem seu tempo próprio para o aprendizado. Assiduidade, treinamento duro e orientação competente são elementos subjetivos, pois posso frequentar todas as aulas e ainda assim não conseguir progredir devido a uma série de coisas, posso treinar duramente e ainda assim este treinamento estar errado ou mal direcionado, além disso, se estou iniciando a prática de uma arte marcial não tenho parâmetros formados para saber se a orientação que recebo é competente... 

Kenwa Mabuni1889-1952
Sendo assim, falar sobre um número aceitável de anos e em prática “assídua e dura”, quando na realidade estes “tantos anos” são utilizados apenas como educação física ou treino desportivo e não utilizados no aprendizado real do sentido da faixa preta e do verdadeiro objetivo do treino de uma arte marcial japonesa... não passa de “conversa mole” para iludir pessoas que não tem a mínina noção sobre estes assuntos. 

Em forma de conclusão, a faixa preta é (ou pelo menos deveria ser) atribuída como um símbolo de alguém que se iniciou em uma arte, em nosso caso específico o Karatedō, e está começando no estudo do mesmo... nada mais. O sentido que deveria ser entendido neste ponto do treinamento é o mesmo sentido que tínhamos quando amarramos pela primeira vez a faixa branca na cintura: “É hora de começar a treinar...” é disto que o mestre Kenwa Mabuni estava falando quando em seu Godōshin afirmava que o "importante" é "não esquecer a intenção original", ou seja, ter sempre "determinação".

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Referências

GOULART, Joséverson. Sobre o verdadeiro significado da faixa preta. Disponível em: <http://groups.msn.com/ShinseiKaiShito-RyuKarate-Do/>. Acesso em: 2 de Janeiro de 2008. 

NISHIYAMA, Hidetaka. Significado da faixa preta[2]. Disponível em: <http://www.geocities.com/karate_shotokan_br/significado.htm>. Acesso em: 2 de Janeiro de 2008. 


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Notas

[1] Mestre Hidetaka Nishiyama. 
[2] Texto traduzido a partir do original encontrado no site da Federação Espanhola de Karate-do Tradicional.

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