As Artes marciais e o caminho psicossomático

(...) O ser humano é um pensamento em atividade e, ao atuar, move-se. Ao mover-se, se expressa. 

As Artes Marciais são Movimento e, por tal razão, podem ser uma possibilidade de expressão. É eficaz para evitar que a nossa agressividade não se transforme em patologia, e desta forma poder orientá-la para o criativo permitindo, assim, que o ser humano realize movimentos tanto belos como harmônicos. 

Num mundo tão convulsionado e hostil, o ser humano é vítima de suas limitações e seus medos. As Artes Marciais podem ser um excelente meio de corrigir atitudes negativas. A vida quotidiana está cheia de conflitos que o ser humano deve enfrentar diariamente. As Artes Marciais capacitam-no para enfrentar e resolver situações de conflito. 

(...) Os alunos voltam sua atenção para a técnica que pretendem aprender, e por esta razão os seus movimentos trazem à luz o seu verdadeiro caráter, bem inibido ou extrovertido, referência esta que se manifesta numa simples postura. A postura em pessoas com caráter inibido se expressa como: falta de confiança em si mesmo, uma atitude reprimida perante o mundo e a vida, problemas de relacionamento e comunicação, etc. Neste caso os movimentos são curtos, débeis, carentes de equilíbrio. O contrário acontece com caracteres extrovertidos. Estes expressam arrogância, supervalorização de si mesmo, atitude dominante e agressiva, egocentrismo, etc. Neste caso os movimentos são fortes, amplos, compridos, demasiadamente rígidos, posturas firmes, embora deformadas, etc. 

O professor, por meio de um treino correto, pode conseguir um equilíbrio mecânico que, sem dúvida, influirá na atitude do aluno. 

(...) Os movimentos, bem sejam de postura ou de coordenação, ou de qualquer outro ato motor, passam por uma seleção dos elementos do esquema corporal, ou seja, aprender a movimentar os grupos musculares corretos de maneira independente em relação aos segmentos vizinhos. Isto só é possível mediante a constante repetição da experiência motriz consciente. Quando se domina a técnica, já se está em condições de disponibilidade para ser integrada ao conhecimento prático, ou seja, à aplicação. 

No combate nas Artes Marciais podemos observar que os movimentos fluem de forma constante e veloz. Ambos tentam obter vantagens circunstanciais que acumuladas, somem pontos no resultado final. Cada um dos combatentes dispõe de táticas que conformam a estratégia, previamente planejada. Podemos obter dados valiosos sobre a personalidade de ambos os sujeitos. 

Há quem costuma se recolher de maneira constante, como se tivesse dificuldades para enfrentar situações de risco. Ou há aqueles que, diante dos espaços que lhes oferece a defesa do adversário, lhes custa definir, tal é o caso dos indecisos e dos que fogem do conflito. Ou aqueles excelentes lutadores, que nunca chegam a campeões. A quem lhes aflora o medo à responsabilidade de ser o número um. Também aqueles que, ante a um adversário de inferior capacidade, não planejam o combate, mesmo tendo tudo a favor... eis aqui a falta de fé em si mesmos. Há certas circunstâncias na luta, onde a dúvida nos faz vacilar, fazendo-nos perder grandes oportunidades. Há quem pelo contrário, humilha o adversário e o castiga mais que o devido. Aqui o sujeito demonstra uma supervalorização de si mesmo, com perturbações no egocentrismo e agressividade nas atitudes. Os que se ofendem quando recebem um golpe, mesmo que não tenha sido intencional, estão mostrando um mal entendido "amor próprio", ao mesmo tempo em que demonstram problemas afetivos. Os que se inibem durante a luta, são aqueles extremamente tímidos e carentes de caráter. 

Os que têm dificuldade em coordenar os movimentos, a fim de poder-se harmonizar com o adversário, com a finalidade de evitar quaisquer circunstâncias que possam por em perigo à integridade física de ambos os contundentes, também tem problemas para comunicar-se com seus semelhantes e no mundo das relações.

Numa prática bem orientada pedagogicamente, o praticante aprende a conhecer seus limites e, consequentemente, a distanciar-se cada vez mais deles. Compreende as necessidades do seu corpo porque se acostuma a dialogar com ele e atender às suas necessidades básicas. 

O trabalho em grupo lhe ajuda a solucionar seus problemas afetivos e de comunicação, pois sendo o grupo solidário com esforços individuais, solidariza-se na busca de objetivos comuns. Isto contribui na conquista do equilíbrio corpo-mente-meio ambiente exterior. 

Aprende a assumir as suas limitações e, por acréscimo, superá-las com força de vontade e perseverança. 

A agressividade, tomada como uma herança da sociedade em que vivemos, é canalizada de uma forma mais criativa, pois, ao ter a oportunidade de expressar-se sem preconceitos, se libera dos conflitos pessoais, conseguindo assim, um autocontrole consciente e carente de toda e qualquer inibição, desenvolve o caráter, resultando num ser social moral e íntegro. E, sobretudo, o praticante aprende a ser seguro de si, equilibrado, sensível à beleza e dono de seu próprio destino. Enfim, aprende a ser autêntico. 

De alguma forma, sempre estamos procurando melhorar em algum sentido: trabalho, estudo, imagem, etc... Quando um indivíduo caminha, junto com seu corpo, o ser humano também leva suas alegrias, suas angústias, seus êxitos e fracassos, seus triunfos e suas frustrações. O ser humano angustiado costuma andar de maneira silenciosa, com a cabeça baixa e os ombros caídos. Contrastando com o passo firme, harmonioso e decidido de um ser humano seguro de si mesmo. As Artes Marciais, pela sua estrutura e metodologia de ensino, provê uma série de técnicas que o estudante vai assimilando de maneira suave e harmoniosa. Estas técnicas vão enriquecendo o indivíduo em sua capacidade de expressão. Isto, somado à inspiração, origina a criatividade de maneira espontânea diante de estímulos determinados, como os que podem se originar num combate. 

O combate é a máxima expressão das Artes Marciais. Nele é onde se põe em jogo, todo o aprendido, permitindo-se a expressão em toda sua capacidade criativa. É algo elegante e mortífero ao mesmo tempo. É uma circunstância limite porque nela se colocam em jogo valores relacionados com a vida e a morte. A ação impulsiona o ser humano a manifestar sua capacidade analítica a fim de superar situações de conflitos. Então aflora o "Eu Real", porque descobrimos que nos encontramos a sós com a nossa circunstância. Não podemos contar com ninguém, salvo com a nossa capacidade de aplicar o que sabemos. Mas a luta não se trava somente com nosso adversário circunstancial, porque, também ali, aparecem aqueles inimigos que sempre nos acompanham: nossos medos, nossas angústias, nossas limitações. Surpreender-nos-íamos ao comprovar que, a um determinado ataque, vários indivíduos podem reagir de maneiras totalmente diferentes. Cada um reagirá de acordo com a sua realidade interior, ou sua particular visão de uma realidade. 

No entanto, é no combate onde afloram dois tipos de sentimentos, a saber: 

A respeito de si mesmo: 
  • Positiva: confiança em si, segurança, valorização, etc. 
  • Negativa: inibição, insegurança, ansiedade, temor ao fracasso, etc. 
A respeito do oponente: 
  • Positivo: domínio da situação, firmeza, oposição aos ataques, decisão, etc. 
  • Negativa: submissão, sentido de derrota, dependência, complexo de inferioridade, covardia, etc. 
Alguns indivíduos mostram um domínio pleno, em qualquer circunstância. Impõem seu ritmo e mandam na ação. Estes indivíduos são, por regra geral, aqueles que, de alguma maneira, têm descoberto e interpretado a linguagem do corpo. Então, o combate é uma leitura da expressão do adversário que e um gesto ou em uma postura, capta, por antecipação, o que o adversário está planejando fazer. 

Aquele que aprende a dominar seu corpo e a expressar-se com ele pode converter-se num verdadeiro artista. 

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Referências

ALVEZ, Elismar José. As Artes Marciais e o Caminho Psicossomático. Instituto Bodhidharma do Brasil. Disponível em: <http://www.bodhidharma.com.br/portugues/index.htm>. Acesso em: 15 de Maio de 2005.

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