A filosofia das artes marciais

Por definição, qualquer conjunto de defesa pessoal ou técnicas militares pode ser considerado uma arte marcial, desde que tais métodos tenham sido utilizados como recurso defensivo de uma comunidade. No entanto, mesmo que uma técnica de defesa pessoal seja muito eficiente ela não pode ostentar o título de arte marcial se não foi usado para defesa da pátria e dos bens pessoais e públicos de seus cidadãos.

Porém, esta é uma definição moderna, uma definição da era da informática, uma definição que vem de um mundo onde as palavras perderam o seu valor. Na realidade, para descobrir o que significa o termo arte marcial é preciso realizar um estudo etimológico, analisando o sentido das palavras.

Adotando esta chave é necessário buscar o significado da palavra arte. O dicionário diz que arte é a capacidade que o homem tem de pôr em prática uma ideia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria, ou seja, arte é tudo aquilo que põe o homem em contato com o mundo das ideias, o mundo dos arquétipos. Arte é a representação do bom, belo e justo. 

Tudo aquilo que exalta as baixas paixões, a arritmia, a violência ou o desespero ignorante não é arte. [...]

A respeito de marcial vê-se no dicionário a seguinte definição: próprio da guerra. Porém, esse termo foi importado do romano [...]. Na mitologia romana Marte é considerado como Deus da Guerra. [...]

Onde se conclui que as artes marciais são um meio de acesso ao mundo interno, pondo o homem de frente a ele mesmo, possibilitando que ele tome consciência de si próprio. [...]

As artes marciais autênticas correspondem a Doutrina da Guerra Interior ou “Não Violência” [...] aquele que não sabe ou não pode defender-se nem atacar a outro quando é ofendido, não se encaixa no conceito de “Não Violência” e sim de incapacidade e ineficiência que o leva a guardar ódio [...] e a isto também podemos chamar de violência. O não violento seria aquele homem que, tendo condições de acabar com quem o ofendeu, sabe se controlar mantendo o seu centro e evitando assim uma ação que carece de sentido para ele.

Portanto, a guerra é interna... sempre e quando não se exclui a capacidade de fazê-la também externamente e com justiça.

Hoje em dia, devido à confusão dos termos alguns praticantes enfatizam a palavra filosofia dentro das artes marciais, numa tentativa de lembrar que as artes dedicadas a Marte são uma das pontes entre a humanidade e a sabedoria. Pois, hoje a maioria dos métodos de defesas pessoais, chutes e socos que são considerados como artes marciais não passam de um esporte com caráter marcial, no seu sentido moderno.

Tradicionalmente, todas as artes marciais implicam uma trilha de caráter filosófico, ou seja, treina-se em busca da sabedoria. Este é o motivo pelo qual as artes marciais orientais colocam na sua proposta a palavra "Dō", como por exemplo: Karatedō, Aikidō, Jūdō, Kendō, etc... “Dō” significa, neste contexto, caminho filosófico, podendo ainda ser considerado como um modo da vida.

Na realidade as artes marciais com todas as suas práticas, técnicas, disciplinas e poderes que desenvolvem, não são para serem aplicadas nos outros e sim em nós mesmos. Pois apontam para nossas debilidades e fraquezas que são muito mais difíceis de vencer que um simples combate em qualquer escola ou academia. 

Enfim as técnicas de artes marciais como um todo, são símbolos externos do ideal interno, de sabedoria, de autoconhecimento e de auto-aperfeiçoamento. E como símbolo, tem o poder de formar indivíduos sábios que podem criar uma sociedade mais justa, bela e harmônica [...]. 

Sendo assim, podemos concluir que 
“Sem a filosofia, o caminho das artes marciais não é caminho, não passa de uma atividade como qualquer outra. O problema principal é que as artes marciais, sem filosofia, não são capazes de transformar o ser humano em algo melhor e, às vezes, dão armas ao homem comum para que continue carregando sua ignorância e pensando que é mais forte e poderoso que os demais. Nisto está o perigo maior, já que antes de dar armas para alguém, primeiro há que lhe formar o caráter numa disciplina de vida ética e moral, para que essa pessoa queira ser boa, bela e justa. Do contrário, as artes marciais criam uma distorção que pode levar ao mal, à violência e à destruição. A Filosofia das Artes Marciais é o caminho prático na busca de fatores tais como a vivência da fraternidade, do ecletismo, do conhecimento, do desenvolvimento das virtudes morais, da busca do êxito e da conquista sobre si mesmo, a aplicação da estratégia para conquistar um projeto de vida e, finalmente, a conquista da Sabedoria” (ISASA, Michel).
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Referências:

Instituto Bodhidharma do Brasil. A Filosofia das Artes Marciais. Disponível em: <http://www.bodhidharma.com.br/portugues/index.htm>. Acesso em: 15 de Maio de 2005.

ISASA, Echenique Michel. A Filosofia das Artes Marciais. Edições Nova Acrópole.

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