10 diferenças entre o Karate de Okinawa e o Karate do Japão

Pergunta:
“Você conhece as diferenças entre o Karate de Okinawa e o Karate do Japão?”
Eu não conhecia.

Então, decidi visitar Okinawa – o berço do Karate.

Desde então, visitei esta incrível ilha uma dúzia de vezes, para fazer pesquisas sobre o Karate. E, inclusive, morei lá em 2009 para estudar a Língua Japonesa.

Sendo assim, posso assegurar a você...

Existem MUITAS diferenças entre o Karate de Okinawa e o Karate do Japão!

Hoje, decidi revelar dez delas para você.

Soa interessante?

Vamos lá:


#1. Posições altas

Shikō-dachi de Okinawa.

No Karate de Okinawa há muitas posições altas.

Por quê?

Porque é natural.

Para muitas pessoas, essa é uma boa notícia!

Posições baixas podem, normalmente, parecer forçadas principalmente para ocidentais de alta estatura, e tendem a serem dolorosas para os joelhos, pés e costas.

(Particularmente se feitas de forma errada.)

Para se ter uma perspectiva das coisas, um Zenkutsu-dachi de Okinawa pode ser da metade do tamanho de um Zenkutsu-dachi japonês.

Perfeitos para preguiçosos como eu!

Mas...

Será que este tipo de posições podem construir pernas fortes e resistentes?

Realmente não.

Não é esta a questão, de qualquer foma.

As posições do Karate de Okinawa são feitas para serem práticas quando aplicadas na defesa pessoal, uma vez que podem ser rápida e facilmente executadas a partir da postura natural.

Este é o ponto.


#2 O “Por quê” acima do “Como”

Bunkai do Kata Seisan por Chōjun Miyagi.

Se você pratica o Karate de Okinawa, normalmente vai ouvir a palavra “Imi”.

“Imi” é traduzido como “significado” em Português.

Assim, no Karate de Okinawa, o “significado” da técnica é muitas vezes mais trabalhado do que “como” a técnica é realmente executada.

O “por que” é mais importante do que o “como”.

Por outro lado, o Karate do Japão normalmente é mais focado no “como” do que no “por que”.

De que maneira?

Há três razões principais para isso:
1. O significado de muitas técnicas foi perdido durante a história da transmissão do Karate de Okinawa para o Japão. Se você não sabe o “por que”, é mais propício a ensinar o “como”. 
2. O propósito no Karate do Japão não está mais em consonância com o propósito do Karate de Okinawa. Historicamente falando, o Karate do Japão foi moldado para refletir o “caminho espiritual” (Karatedō) das artes marciais contemporâneas como Jūdō, Kendō, Aikidō, etc... com o objetivo principal de desenvolver o caráter de seus praticantes (através do “como”). O propósito do Karate de Okinawa sempre foi, de forma principal, a orientação para defesa pessoal (o “por que”). 
3. O nível de conhecimento marcial, isto é, a biomecânica do Budō, é muito mais profunda no Japão. Muitas técnicas do Karate do Japão são influenciadas por outras artes marciais japonesas, mais estabelecidas, onde os padrões de movimentos são bem pesquisados. 
Por exemplo, um Sensei japonês irá muito mais fundo nos detalhes de um Kata.

(Como girar o quadril, como ajustar seus pés, como deslocar seu peso, etc...)

Porém, um Sensei de Okinawa irá normalmente lembra-lo, ao invés disso, do objetivo do Kata.

O “Bunkai”.

Entendeu?


#3 Não existe “Osu!”

No Karate do Japão, a voz de comando “Osu!” (pronunciada “Oss”) é usada algumas vezes.

Este fenômeno também tem se espalhado pelo ocidente, e inclusive é popular no “Brazilian Jiu-jitsu” e MMA nos dias atuais.

Mas...

NUNCA ouvi o termo “Osu!” ser usado em Okinawa.

Por quê?

A razão pode ser achada aqui: 


Ao invés disso, praticantes de Okinawa geralmente usam a palavra “Hai!”.


#4 Não é um esporte. É um estilo de vida.

Tsuneko Machida, 75 anos, 4º Dan.
Começou a praticar o Karate aos 63 anos.

Quando o Karate foi introduzido no Japão, muitas coisas mudaram.

Por exemplo, as pessoas começaram a competir.

A maioria das pessoas não sabem disso, mas os praticantes de Karate do Japão, de fato, modificaram muitos Kata e adicionaram muitas diferentes novas técnicas de Kumite, apenas com o propósito de marcar pontos em competições.

Acredite; você nunca verá um Sensei de Okinawa ensinando um chute girando pelas costas na altura da cabeça!

Não me interprete mal; as pessoas em Okinawa também competem nos dias de hoje. Porém, há uma grande diferença em sua abordagem.

Em Okinawa, o Karate não é um esporte.

É um estilo de vida.

Como um dos meus amigos de Okinawa, um Sensei 7º Dan em Shōrinryū, me disse uma vez:
“O Karate é parte da nossa identidade cultural.”
E ele realmente é.

A herança do Karate está em toda parte em Okinawa, e é como uma parte natural de sua cultura, é justamente por isso que não faz sentido competir.

Um bambu que cresce, não compete com o bambu ao seu lado.

Certo?


#5. Chinkuchi acima do Kime

Bruce Lee demonstrando o “Soco de uma polegada”.

No Karate do Japão,o conceito de “Kime” é super importante.

Você provavelmente já deve ter ouvido o termo.

A palavra “Kime” vem da raiz do verbo “Kimeru”, que literalmente significa “decidir”.

“Kime” significa aquela parada instantânea ao final da técnica.


Agora preste atenção nisto…

No Karate de Okinawa, há algo a mais:

Chinkuchi!

Veja, no Karate de Okinawa não é importante congelar a técnica rapidamente.

É mais importante transferir toda sua energia para o oponente – como uma descarga elétrica. Para fazer isso, você precisa liberar de forma explosiva toda a força do seu corpo.

Você já viu o famoso “soco de uma polegada” do Bruce Lee?

É um perfeito exemplo de Chinkuchi.


É tudo uma questão de força.


#6 Armas do Kobudō

Jesse Enkamp ensinando Kobudō em seu Dōjō.
O “Eiku” (remo) é uma das armas do Kobudō de Okinawa.

O Karate japonês é comumente treinado com as mãos vazias.

Mas em Okinawa, quase todos os Dōjō tem armas penduradas na parede.

Por quê?

Porque eles praticam Kobudō - arte antiga de manejo de instrumentos agrícolas usados para o combate.

As dez armas mais comuns do Kobudō são:
  1. Sai
  2. Tonfā
  3. Nunchaku
  4. Kama
  5. Tinbē/Rōchin
  6. Tekkō
  7. Kuwa
  8. Sansetsu-kon
  9. Nunchi-bō
Agora, não estou dizendo que o Karate de Okinawa é uma arte com armas.

Mas há muito tempo atrás, a Okinawa rural era um lugar muito perigoso.

Muitos bandidos portavam armas.

E se você nunca praticou com armas, é difícil defender-se de uma.

Por isso, os mestres das escolas antigas de Karate eram também mestres de Kobudō.


Como Masahiro Nakamoto, 10º Dan em Okinawa Kobudō, me disse uma vez após o treino em seu Dōjō:
“Karate e Kobudō são como irmão e irmã. Nunca os separe.”
Atualmente, a maioria dos Dōjō de Karate em Okinawa praticam muito pouco Kobudō.

Mas acreditem em mim - eles sabem alguma coisa!

No Karate do Japão, é praticado ainda menos...

Se é que praticam.


#7 Instrumentos de força das escolas antigas

Os mestres do Karate de Okinawa sempre promoveram o condicionamento físico.

Porque se você é fraco e delicado, simplesmente não consegue defender a si mesmo de forma eficaz!

Então, eles desenvolveram muitos instrumentos “estranhos” para fortalecer e condicionar os seus corpos.

Estes aparelhos ainda são usados no Karate de Okinawa até hoje.


Alguns dos meus favoritos são: 
1. Makiwara - Uma placa madeira, flexível, envolta em palha usada normalmente para socar. O ditado “Um Dōjō sem Makiwara não é Dōjō” deve deixar claro o quão importante essa ferramenta de impacto é em Okinawa. 
2. Chi-ishi - Um peso de pedra ligado a uma vara de madeira curta, feito para ser colocado ao redor do corpo para fortalecer os braços, os pulsos , as mãos , as costas e o centro de gravidade. 
3. Ishi-sashi - Um peso de mão feito de concreto em forma de um cadeado, originalmente feito de pedra. É usado da mesma forma que um “Kettlebell” moderno, mas com as com características específicas do Karate. 
4. Nigiri-game - Grandes jarros de cerâmica cheios de areia, que você segura ao redor do aro “um cada mão” durante uma caminhada em diferentes posições para reforçar a sua pegada, seus pulsos, seus braços, suas pernas e seu centro de gravidade. 
5. Tō - Um feixe de bambu amarrados na parte superior e inferior. Para golpear com os antebraços, com os dedos e com os cotovelos (quase como uma Makiwara), mas também com as pernas para condicionar as canelas.
No Karate do Japão, você raramente vê essas ferramentas de treinamento - exceto a Makiwara.

Porém, em Okinawa, você as encontra em todos os cantos do Dōjō.

Elas são essenciais.


#8 Técnicas Tuidi

Chōki Motobu aplicando “Tuidi” (Kata Naihanchi)

Em seguida temos algo chamado de “Tuidi”.

Enquanto o Karate do Japão prioriza o combate a partir de uma distância longa, o Karate de Okinawa prefere uma distância mais curta, mais próxima.

É aqui onde o “Tuidi” entra em jogo.

“Tuidi é um método de Okinawa para segurar, prender, torcer e deslocar as articulações do oponente”.

Naturalmente este aspecto do combate envolve outras coisas menos agradáveis, tais como: asfixia, desequilíbrio, arremessos, imobilizações de mãos, golpes nos pontos de pressão e nos feixes nervosos, etc.

Essas coisas raramente são ensinadas nas aulas normais do Karate no Japão.

Por quê?

Por que, mais uma vez o Karate do Japão foi fortemente influenciado pelas tradições marciais pré-existentes quando ele foi introduzido no Japão a partir de Okinawa. O original, combate curto, foi alterado para uma forma de combate mais longo - e conceitos como “Maai” (distância ideal) foram emprestados diretamente da esgrima dos Samurai japoneses (Kendō).

Portanto o conceito de “ Tuidi ” não é tão importante no Karate do Japão.

Porém, no Karate de Okinawa, ele ainda está sendo praticado.

Um exercício comum de Okinawa para praticar o “ Tuidi” é chamado “ Kakie” - algo como “pendurar-se”, normalmente chamado “pressão de mãos” no ocidente.


De fato , quando você examina de perto, os Kata das escolas antigas, verá que o “Bunkai” dos movimentos do Kata fazem muito mais sentido em distância curta do que em distância longa.

Tente isso e você verá.


#9. Formação individual acima da formação em massa

Gichin Funakoshi ensinando Karate para alunos japoneses na Universidade de Keio.

Como você pode ter percebido até agora , o Karate de Okinawa tem muitas peculiaridades.

Para compreendê-lo de verdade, você precisa experimentá-lo de perto.

Basicamente, você precisa da atenção pessoal vinda direto de um Sensei.

É por isso que o Karate de Okinawa é difícil de ser ensinado ao um grande grupo de pessoas ao mesmo tempo – você simplesmente não consegue dar atenção individual adequado pra um grupo de cinquenta alunos ou mais!

O Karate do Japão, por outro lado, foi adaptado para grandes grupos.

Por quê?

Por que, esse era o objetivo do Karate quando foi introduzido nas diversas universidades ao redor de Tōkyō, Ōsaka, Kyōto, em meados do século XX.

Este fenômeno, juntamente com as competições, é a razão pela qual muitos movimentos do Karate do Japão, são maiores e mais simplificados do que os movimentos do Karate de Okinawa.

Eles precisam ser facilmente vistos por enormes grupos de pessoas!

No Karate de Okinawa é o oposto.

Na verdade, um Dōjō de Okinawa tem em média um espaço para dez ou quinze pessoas no máximo. Este ambiente de treinamento espartano, na realidade contribui para o foco do ensino individual ao invés da instrução em massa.


Infelizmente, esta é a razão pela qual muitos mestres de Okinawa não conseguem viver do Karate.

Eles não têm espaço suficiente para os alunos.


#10 Uchinā-guchi 

Bandeira de Okinawa

Por último, algo que você já deve ter notado através de todo o artigo:

O Karate de Okinawa possui uma linguagem própria.

“Uchinā-guchi”.

(Literalmente: “Boca de Okinawa”.)

Muitos dos termos do Karate de Okinawa mencionados acima - como Chinkuchi e Tuidi - não são palavras japonesas. São termos antigos da linguagem de Okinawa.

Alguns outros termos populares são:

Muchimi, Gamaku, Meotode, Chinkuchi, Machiwara, Ti, Shinshii, Toudi, etc...

(Aqueles que estiveram no meu seminário, vão reconhecer os quatro primeiros.)

Esta linguagem é ainda utilizada pelos mestres tradicionais em Okinawa.

Por exemplo; quando eu viajei para Okinawa no último verão, aprendi um novo Kata chamado Tomari Chintō.

Em uma técnica particular, meu Sensei disse para eu fazer um movimento chamado “Hanchaatii”... Hein? O que é isso?! O que ele quer dizer? Quando ele viu que eu estava confuso, rapidamente se desculpou e falou o termo japonês equivalente; “Hana-ageru”.

Agora entendi!

Isso mostra que o Uchinā-guchi ainda está muito vivo nos dias de hoje.

Mas nunca é usado no Karate do Japão.

Apenas em Okinawa.

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Com essa palavras, concluo essa lista de dez diferenças entre o Karate de Okinawa e o Karate do Japão.

O que você acha?

É claro, estas são apenas generalizações – porém, elas estão baseadas nas minhas observações pessoais depois de muitos anos viajando e vivendo em Okinawa e no Japão.

Pessoalmente tento mesclar o melhor dos dois mundos.

No último verão Jesse Enkamp encontrou Yukimitsu Hasegawa em Okinawa. Hasegawa-sensei é sete vezes campeão mundial de Kata (pela WKF) e mestre de Karate no Japão. Jesse Enkapm relata: Com a cara espantada Hasegawa-sensei me disse; “o Karate de Okinawa é muuuuuuuitoooo diferente do japonês! Muito poderoso!”


Ah! Eu gostaria de mencionar um #11: 


A atmosfera do Dōjō.

Em Okinawa, você nunca tem medo de ninguém dentro do Dōjō! Ninguém tenta machucá-lo, ou fazer mais do que você, e não há nenhuma “aura divina” em torno do Sensei.

Todos estão lá como amigos, trabalhando juntos, no espírito do Karate.

É uma coisa linda.

Claro, o ritmo de Okinawa pode parecer lento em comparação com o ritmo “matar ou morrer” de alguns Dōjō japoneses - mas eu culpo o calor tropical por isso.


No final, é sobre fazer o que se ama. Seja de “Okinawa” ou do “Japão”.

Faz sentido?

Obrigado por ler, meu amigo! (^_^)

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Referencias:

ENKAMP, Jesse. 10 differences between Okinawan Karate & Japanee se Karate. Disponível em: <http://www.karatebyjesse.com>. Acesso em: 1 de Maio de 2015.

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Tradução/Adaptação:

ANDRETTA , Denis Augusto Cordeiro; SANTOS, Adriana Silva dos.

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