O “segredo” dos campeões mundiais de Kata!

De acordo com Jesse Enkamp, Karate Nerd, do famoso site KARATEbyJesse.com, os movimentos de muitos campeões mundiais de Kata são incrivelmente impressionantes.

Concordamos com ele.

Por exemplo, Rika Usami, campeã mundial de Kata Feminino pela WKF, tem uma velocidade incrível e um Kime invejável em suas técnicas.

Mas como é que estes campeões fazem para obter estas características espantosas em suas técnicas?

Aparentemente, Jesse Enkamp fazia o mesmo questionamento.

Em um dos artigos de seu site, intitulado ‘How to “Snap” Your Karate Techniques Like Rika Usami’ [Como “estalar” suas técnicas de Karate como a Rika Usami?] (http://www.karatebyjesse.com/rika-usami-karate-technique-secret), ele explica que as técnicas podem ser comparadas ao som de um chicote.

No mesmo artigo, explica que de acordo com Yoshimi Inoue, o Sensei de campeões mundiais como Rika Usami e Antonio Diaz, há três princípios para uma boa técnica: velocidade, tempo e equilíbrio.

Jesse Enkamp encerra seu artigo afirmando que se você quer melhorar suas técnicas, deve se concentrar na técnica correta (velocidade, tempo e equilíbrio) com o objetivo de gerar energia suficiente para tornar seu corpo num “chicote humano”.

Um grande conselho.

Algum tempo depois de ler este artigo, assistimos um vídeo interessante no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=G2WyOBRDNBo) onde algumas técnicas de Karate estavam sendo explicadas pela campeã mundial Rika Usami, onde demonstrava o Heian Nidan do estilo Shitōryū.


Foi quando notamos algo muito interessante!

O “estalo” que deveria vir da execução da técnica do Kata Heian Nidan, chamada “Uchi-otoshi”, (aos 7:15 minutos no vídeo, e novamente aos 7:21 minutos) parecia não vir da técnica, mas sim de algum outro ponto, feito pouco antes da execução da técnica.

Infelizmente, a técnica era tão rápida que mal podíamos vê-la! O que dificultava saber com certeza de onde vinha o “estalo”.

A fim de examinar isso melhor, baixamos o vídeo e observamos o movimento quadro a quadro (ver Figura 1) e nossa suspeita foi confirmada...


Ao girar para a esquerda para fazer o “Uchi-otoshi” fica claramente visível que Rika Usami bate a mão direita na manga do casaco que cobre o seu antebraço esquerdo (seta vermelha na Figura 1), faz isso rapidamente, trazendo a mão direita para “Hikite” e executando “Uchi-otoshi” com o braço esquerdo. 

Incrível!

Para certificarmo-nos que não era algo pontual, verificamos uma série de outros vídeos de Rika Usami (no qual realizava outros Kata, tais como: Kōsōkun-dai e Chatan’Yara Kūshankū) e notamos, após a análise quadro a quadro, que os “estalos” muitas vezes não eram decorrentes do “Kime” da execução correta das técnicas (velocidade, tempo e equilíbrio), mas sim o resultado de alguns “tapas” dados em diversas partes do “Karate-gi”.

Quando percebemos isso, passamos a analisar no YouTube outros atletas que executam Kata “superiores” em competições de alto nível.

Nossas descobertas vão surpreendê-los...

Encontramos, por exemplo, um vídeo no qual a atleta vietnamita, ex-campeã mundial, Hoang Nguyen Ngan, realiza o Kata Ānan (https://www.youtube.com/watch?v=362xQmlj1zA).


Usando a análise quadro a quadro, como já havíamos feito anteriormente, notamos que suas técnicas foram muitas vezes “incrementadas” por golpear, com a mão totalmente aberta, o seu “Karate-gi”.

Isto é particularmente evidente na Figura 2 (em torno dos 0:49 minutos) onde uma série de imagens consecutivas são mostradas.


Nesta sequencia, é claramente visível que Hoang Nguyen Ngan, antes de fazer o “Hikite” com a mão esquerda, na execução de um “Shōtei-uchi” (pancada com a palma da mão) com a mão direita, bate com a mão esquerda, aberta, em seu “Karate-gi”, na altura de seu abdômen (seta vermelha na Figura 2).

Porém, isso não é tudo!

Vejamos o vídeo do campeão mundial Antonio Diaz (https://www.youtube.com/watch?v=KxTMP5_kA3Y) que mostra a realização de uma sequencia de “Shutō-uke” (Defesa com a faca da mão) no Kata Chatan’Yara Kūshankū (por volta dos 0:50 minutos)... preste bem atenção.


Antonio Diaz adiciona uma “tapa” extra em seu peito antes de cada uma das técnicas de “Shutō-uke” (Figura 3).


Os movimentos vistos nas fotografias de 1 a 5 da Figura 3 são totalmente desnecessários, uma vez que o “Shutō-uke” é realizado, de fato, nos movimentos que estão nas fotografias de 6 a 8!

Da perspectiva de execução de uma técnica correta, este movimento é completamente irrelevante, criado com o único propósito de gerar um “som”, afim de dar a impressão de que o “estalo” vem da realização do “Shutō-uke”.

Achamos que isso é descartável, para não dizer errado.

Há muitos outros exemplos de competidores de elite em Kata, de nível internacional, que fazem estes tapas em seus “Karate-gi” e como as pessoas acima relacionadas estão no topo do mundo nas competições internacionais de Kata acabam se tornando (maus) exemplos para muitos praticantes. Por esta razão foram eles os mencionados neste artigo.

Contudo, gostaríamos de enfatizar que estes competidores são, obviamente, atletas excepcionalmente qualificados, que foram treinados por muitos anos para alcançar a excelência que possuem.

É, no entanto, decepcionante que eles usem esses tipos de “truques” para melhorar seu desempenho, porque não precisariam disso. Ou seja, são muito talentosos e estariam competir em mundiais mesmo sem eles.

Este truque, de bater no Karate-gi, é em nossa opinião comparável a expiração “alta” (tão altas que determinadas vezes parecem latidos de um cão) que muitos praticantes de Shōtōkan usavam há alguns anos, durante as competições de Kata. Assim como o tapa, a respiração audível pode servir como apoio “externo” para a técnica, porém em nenhum caso estes elementos devem ter prioridade sobre a correta execução de uma técnica.

Algumas pessoas podem achar que o que é discutido neste artigo é uma realidade distante, que só acontece em competições de Kata de nível internacional.

Estão erradas...

Como indicamos acima, estes atletas internacionais são modelos para muitos praticantes. São admirados e, portanto, copiados diariamente, por competidores de Kata locais, em todo o mundo.

(...) Concluindo...

Os sons que estamos ouvindo nas competições de alto nível, conforme foi visto nos exemplos acima, não têm nada a ver com execução correta, velocidade ou “Kime” de uma técnica, são apenas tapas nos antebraços, no abdômen, no peito ou na lateral do corpo dos competidores.

Em nossa opinião, trata-se estritamente de elementos para “dar show”, apoio teatral, que não pertencem ao verdadeiro Karatedō.

Além disso, desvaloriza o verdadeiro “Kime” e esse fato deveria ser incluído nas decisões finais dos árbitros.

Os juízes devem levar em conta isso em suas avaliações, uma vez que está claramente definida nas regras de Kata das diversas Federações (no caso da WKF, Artigo 5), que o “uso de recursos audíveis (de qualquer pessoa, incluindo outros membros da equipe) ou teatro, como bater os pés, bater no peito, nos braços, no “Karate-gi” ou exalação inadequada” é contado como falta.

O Kata não é uma dança ou performance teatral e, felizmente, isso também é claramente indicado nas regras.

Portanto, esperamos sinceramente que este tipo de teatro desapareça das competições de Kata, para que todos possam concentrar-se em ensinar uma boa execução dos Kata, onde os valores e princípios marciais possam prevalecer.

Para encerrar, esperamos que este artigo motive os juízes a avaliar os Kata de forma correta no que tange a respeito da teatralidade descrita acima, dando assim uma contribuição positiva para a disciplina do Kata, o que para muitos praticantes de Karatedō é muito mais do que apenas um esporte.

O que você acha?

---------------------------
Referências:

DAMEN, Peter. Dirty secret that Kata world champions don’t want you to know (!). Disponível em: https://www.facebook.com/karatebyjesse. Acesso em: 31 de Outubro de 2014.

---------------------------
Tradução/Resumo/Adaptações:

Denis Augusto Cordeiro Andretta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.