Os Kata criados por Kenwa Mabuni

O caráter entusiasta de Kenwa Mabuni e sua profissão de oficial de polícia permitiram percorrer toda a ilha de Okinawa e assim aprender múltiplas técnicas de Tōde (antigo nome do Karatedō) e posteriormente sistematizá-las.

Este processo, devido às circunstâncias da época, foi longo e difícil, pois naquela época o Karatedō não era praticado como um esporte, mas sim como uma técnica de combate, a aprendizagem e o treinamento desta arte marcial tinha um caráter intimo e quase secreto. Raramente alguém exibia um Kata em público e era necessário que o mestre tivesse grande confiança na pessoa para aceitar-lhe como aluno e ensinar-lhe.

O Kata de Karatedō é uma forma viva (...). O Kata reflete nosso estado de ânimo e evidencia a qualidade de nossa experiência e maturidade.
“A prática dos Kata produz aversão naqueles que não os compreendem. Se a pessoa não adquire boa forma o Kata parece frouxo e débil, porém se o realiza de modo “vivo”, o espírito do praticante começa a mover-se e transmite o benefício do Kata ao longo de uma boa execução.” (MABUNI, Kenwa)
Do ponto de vista técnico, o Kata constitui o arsenal dos recursos com o qual o Karatedō conta. O Karateka não utiliza armas porque deve converter os membros de seu corpo em armas. As diferentes formas como se utilizam estão pré-configuradas nos Kata. A prática intensa e profunda leva o Karateka a explorar suas próprias qualidades e facilita a possibilidade de aperfeiçoá-las em alto grau.

Há quem somente pratique o Kumite e nunca treine Kata. Também há quem afirme ter inventado novas técnicas. No entanto, quem investiga de verdade a técnica e suas variações acaba por compreender que já estavam presentes no Kata. O praticante não deve encerra-se em Kata determinados. Deve estar disposto a conhecer todos os que forem possíveis, porque a luz de novos Kata, os antigos mostram uma nova realidade. É bom conhecer diversas escolas e diferentes tradições para poder ter assim uma visão adequada e correta do conjunto. Se não conhecer outras escolas nunca saberá os vícios nem as virtudes da tua.” (Karatedō Nyūmon, Kenwa Mabuni)
“Para chegar a entender corretamente os Kata é necessário praticar Kumite. Nos Kata existem um grande número de técnicas e muitas maneiras de aplicar cada uma delas, executando-as corretamente. Não basta repetir indefinidamente os Kata. Para chegar a compreendê-los deveremos desenvolvê-los através do Kumite.” (MABUNI, Kenwa)
A variação de técnicas, a respiração e os deslocamentos do centro de gravidade do corpo são os elementos fundamentais de Karatedō, o Kumite serve para experimentá-los. (Karatedō Nyūmon, Kenwa Mabuni)

Nenhuma outra escola de Karatedō ensina um número tão grande de Kata, isto é fruto da contínua busca e recopilação feita por Kenwa Mabuni. Seu trabalho é especialmente marcante, se levarmos em conta que na época em que viveu, a tendência era se aprofundar no aprendizado de poucos Kata e ele procurou e assimilou Kata de diferentes procedências.

Quanto aos Kata criados por Kenwa Mabuni os classificaremos da seguinte forma:

Os Kata Shinsei e Shinpa elaborados a partir a influência dos mestres Chōjun Miyagi e Kanbun Uechi, respectivamente. Os Kata Jūroku, Aoyagi (ou Seiryū) e Myōjō criados logo depois de sua chegada a cidade de Ōsaka, no Japão, para facilitar a aprendizagem do Karatedō por parte dos jovens estudantes das escolas secundárias, visando desenvolver um sistema de saúde e autodefesa. O Kata Matsukaze criado a partir da modificação do antigo Kata Wankan.


SHINSEI 

Os ideogramas que formam o nome deste Kata, 新生, podem ser traduzidos como "novo nascimento".

Kata criado a partir das formas Gekisai Dai-ichi e Gekisai Dai-ni idealizadas por Chōjun Miyagi, com quem tinha uma relação muito próxima. Kenwa Mabuni e Chōjun Miyagi realizaram ao longo de suas vidas constantes treinamentos e estudos relacionados com o Karatedō.

(...) Kenwa Mabuni, depois aprender os Kata Gekisai com Chōjun Miyagi, formalizou o Kata Shinsei (mais tarde seu filho, Ken’ei Mabuni, cria outra versão desta forma denominando-a Shinsei-ni).

No método de ensinamento do estilo Shitōryū é considerado um Kata intermediário (...).

O treinamento deste Kata combina técnicas lentas e concentradas com técnicas mais dinâmicas, trabalha características técnicas de diferentes formas de Kaishu-uke (defesas com a mão aberta), bem como os ataques em distância curta.

Em nossos dias este Kata ao lado dos Kata Sanchin e Tenshō se constitui no trabalho básico para transmissão das características do Karatedō oriundo de Naha presentes no estilo Shitōryū.


SHINPA

Na transcrição do nome deste Kata é, 侵破; "invadir e destruir".

Este Kata foi criado a partir da observação feita por Kenwa Mabuni em Wakayama, no Japão, do trabalho realizado pelo mestre Kanbun Uechi (fundador do estilo Uechiryū)

Possui movimentos característicos do Karatedō oriundo de Tomari, e a característica primordial deste exercício é o treinamento da técnica Kuri-uke, assim como o conhecimento da utilização do Kōken (punho dobrado) (...).É um Kata intermediário.

Neste Kata também aparecem técnicas defensivas muito características de Kenwa Mabuni [...]. Este exercício é realizado com um ritmo dinâmico, elaborado de uma forma em que as técnicas de mão aberta estão combinadas com os golpes de punho.


JŪROKU, AOYAGI e MYŌJŌ

O mestre Kenwa Mabuni criou estes Kata na época em que foi para Ōsaka, onde se estabeleceu por volta de 1929 com o objetivo de difundir o Karatedō nas ilhas principais do Japão. Neste período os acontecimentos não são muito alentadores, as dificuldades eram muitas. Surge então a necessidade de criar alguns exercícios atrativos para os jovens estudantes das escolas secundárias e universidades da região de Kansai (Ōsaka), procurando demonstrar neles a parte efetiva do Karatedō, ou seja, sua eficácia como método de defesa pessoal.

(...) Estes exercícios, aparentemente de curta execução escondem técnicas muito complexas e de dificuldade considerável. Há que destacar a riqueza e variação de técnicas neles presentes.

Estes três exercícios formais poderiam ser catalogados como Kata ponte para chegar a trabalhar determinadas técnicas superiores, sem ter que conhecer exercícios ou Kata de alto nível de dificuldade.

O Kata Myōjō, 明星, significa "estrela brilhante", e se caracteriza pelo trabalho da técnica Sashite a qual é aplicável tanto em situações de defesa, como de ataque e agarre. Similar ao trabalho realizado no Kata Nipaipo.

O Kata Aoyagi, 青柳, também pode ser chamado de Seiryū, é traduzido como "salgueiro verde" e se caracteriza pelo trabalho, sobretudo, com as mãos abertas. Exercício com uma grande aplicação contra agarres com múltiplas variantes (...).

O Kata Jūroku, 十六, é o número "16" e se caracteriza pelas esquivas e deslocamentos do corpo e também pelo trabalho das técnicas Kara-uke [...]. Diferentes técnicas de ataque e defesa com as mãos abertas também são muito apreciáveis neste Kata.

Ken’ei Mabuni comenta em diferentes ocasiões que os Kata Aoyagi e Myōjō foram elaborados para mulheres e que o Kata Jūroku foi idealizado para homens. Esta situação soa de forma estranha e até incompreensível em nossa época, porém naquele período, devido as conotações culturais e sociais do Japão, Kenwa Mabuni foi um pioneiro em impulsionar a igualdade social entre homens e mulheres.

Kenwa Mabuni comenta em seu livro “Karatedō Nyūmon” a intenção de aproximar o Karatedō das mulheres criando o Kata Myōjō (nome do colégio feminino no qual ensinava) e Aoyagi. Foi assim que conseguiu introduzir o Karatedō no currículo de ensino dos institutos femininos. A forma de Iniciar estes Kata é única e muito característica, coloca-se as mãos sobrepostas protegendo a região dos seios.

Estes Kata são realizados com velocidade nas técnicas e com um ritmo muito dinâmico em suas ações. Utiliza uma grande variedade de técnicas de ataque e defesa. Os ataques de cotovelo, situações defensivas contra agarres e ataques em pontos vitais são manifestações muito presentes nestes exercícios.

O conhecimento correto destes três exercícios, sem dúvida nenhuma, dá ao estudante de Karatedō uma boa noção básica para sua autodefesa.


MATSUKAZE

Kenwa Mabuni cria o Kata Matsukaze, 松風,"o vento nos pinheiros") a partir da modificação do antigo Kata Wankan.

Assim como nos Kata anteriores o trabalho de mão aberta é notável. A similaridade de algumas técnicas com aquelas presentes nos Kata Jūroku e Aoyagi é perceptível, inclusive algumas partes do exercício se parecem muito.

Este Kata também apresenta aplicações contra agarres e as técnicas Kara-uke.

O ritmo de execução é rápido e dinâmico, combinando em diferentes fases do Kata as técnicas de mão aberta e punho cerrado com grande velocidade.

Do ponto de vista histórico, há muito pouca documentação a respeito dos Kata criados por Kenwa Mabuni. Seu filho, Ken’ei Mabuni, em algumas ocasiões, faz menção a história destes Kata dando pequenas pinceladas de informações a respeito. Porém, fazendo uma soma ou análise técnica dos mesmos, não resta nenhuma dúvida que todos estão impregnados pela maneira peculiar que Kenwa Mabuni entendia o Karatedō: uma mistura de fluidez, eficácia e beleza.

Um trabalho apaixonante para qualquer praticante de Karatedō, com inquietações, vontade de evoluir e tentar entender esta antiga arte marcial.


CLASSIFICAÇÃO DOS KATA

Os Kata provenientes dos ensinamentos do mestre Kanryō Higaonna e de Chōjun Miyagi são os seguintes: Sanchin, Tenshō, Saifā, Seienchin, Shisōchin, Seisan, Seipai, Sanseirū, Kururunfā e Sūpārinpei.

Os Kata aportados pelos ensinamentos do mestre Ankō Itosu são: Pin’an (Shodan, Nidan, Sandan, Yodan e Godan), Naihanchi (Shodan, Nidan e Sandan), Jitte, Jion, Ji’in, Rōhai (Shodan, Nidan e Sandan), Bassai (Dai e Shō), Kōsōkun (Dai, Shō e Shihō), Chintō, Chintei, Wanshū e Gojūshi-hō.

Outros Kata: Niseishi, Sōchin e Unshu (aprendidos com Seishō Aragaki); Matsumura-No-Rōhai, Matsumura-No-Bassai, Ishimine-No-Bassai e Tomari-No-Bassai; Nipaipo, Paipuren e Haffa (ensinados por Gokenki); Shinsei, Shinpa, Aoyagi, Myōjō, Jūroku e Matsukaze (criados por Kenwa Mabuni); Chatan-Yara-No-Kūshankū (versão do mestre Yara da região de Chatan para o Kata Kūshankū (Kōsōkun), citado no último livro de Ken’ei Mabuni).

No entanto, com a expansão do estilo Shitōryū surgiram algumas linhas que contam com outros Kata, porém não são herança direta de Kenwa Mabuni.

O número de Kata ensinados no estilo Shitōryū é surpreendente, se for levado em conta o fato de que muitos estilos antigos de Karatedō contavam com um número muito reduzido de formas.
“Não recordo dos Kata apenas mentalmente, mas sim a base de repetição.” (MABUNI, Ken’ei)
Sem dúvidas, Kenwa Mabuni estudou e perseverou na investigação, analisando cientifica e racionalmente todos os documentos e fontes de informações que estiveram ao seu alcance, procurando elevar a arte das mãos vazias a um alto grau, sempre em busca da inatingível perfeição.

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Referências:

FERNANDEZ, Carlos. katas creados por Maestro Mabuni. Escuela de Karate Tradicional. Disponível em: <http://www.karatebcn.com/>. Acesso em: 5 de Outubro de 2007.

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