Algumas curiosidades...

Ah! O Karatedō e suas problemáticas...

Sei que a maioria dos praticantes de Karatedō não tem preocupação, interesse ou até mesmo consideram perda de tempo aprender a falar e escrever os termos japoneses corretamente... afinal de contas o pensamento “comum” é “o que importa é suar o Karatedō-gi praticando as técnicas”. Contudo, acredito que todos deveriam ter mais cuidado com esta questão.

Apenas para exemplificar trarei três curiosidades que mostram a importância de fazer “as coisas certas”.


Curiosidade 1: Sobre a escrita

Em português, quando digo algo como “vou descer para baixo” ou “vou subir para cima” sou repreendido, pois cometi uma redundância. Pois bem... não é diferente com a Língua Japonesa (Nihongo).... Quer ver? Vamos lá então...

Quando utilizo, por exemplo, a expressão “Yoko-geri-keage” (algo muito comum... já vi acontecer muitas vezes, em diversos Dōjō que visitei) estou cometendo um erro semelhante ao acima mencionado. Por quê?

Porque na expressão Yoko-geri-keage... Keri (-geri) e Ke são os mesmos ideogramas e, consequentemente, tem a mesma tradução: “chute”.

Traduzindo literalmente cada um dos termos que compõem a expressão Yoko-geri-keage temos:
  • Yoko – lateral;
  • Keri (-geri) – chute;
  • Ke (keri) – chute;
  • Age – para cima.
Ou seja, é como se estivesse dizendo “chute chute lateral para cima”.

A expressão correta neste caso é: Yoko-keage simplesmente, ou seja: “chute lateral para cima”, o mesmo aplica-se a Mae-keage (“chute frontal para cima”), etc...


Curiosidade 2: Sobre a pronúncia

Assim como acontece com a escrita, a pronúncia correta também pode evitar alguns constrangimentos, principalmente se houver alguém que saiba um pouco mais que nós por perto...

Vamos a um exemplo:

Uchi-uke e Uchi-mata são palavras usadas no Karatedō e Jūdō respectivamente.

Alguns instrutores dizem: "ushi-uke" e "ushi-mata". Porém, em japonês, “ch” tem som de “tch”. E pior... Ushi em japonês é “vaca”.

Pronunciando a palavra desta forma teríamos então "a defesa da vaca" e a "coxa da vaca" quando na realidade se queria dizer "utchi-uquê" Defesa interna, "utchi-mata" Interior da coxa...

Outro exemplo:

Nas aulas de Karate é comum ver os instrutores fazer referência a “Geri-waza”. Isso não existe em Karatedō.

A palavra Geri quando colocada como primeira palavra em uma expressão significa "diarreia". "Técnicas de diarreia" não me parece uma boa ideia em nível de chutes!

O correto é Keri-waza - "Técnicas de chutes/pontapés". a palavra Keri quando vindo em segundo lugar em uma expressão, muda para Geri.

Vejamos:
  • Keri - Chute, pontapé (sozinha ou primeira palavra em uma expressão);
  • Mae-geri - Chute frontal (na segunda posição de uma expressão).
Apenas a título de informação... em algumas das competições de Karatedō que arbitrei... muitos dos atletas chegavam na mesa e diziam aos mesários: “vou fazer o Kata Chintei”... nada de incomum até aqui, porém suas pronuncias eram “xintei” e não “tchintee” como deveria ser.

Contudo, quando procuro por Shintei (pronuncia-se ‘xintee’) em qualquer dicionário japonês/português encontro:
  • 進呈 [しんてい] (shintei) – apresentação, espetáculo, representação teatral.
É verdade que de certa forma muitos dos atletas não estavam errados, pois de fato muitos dos Kata  apresentados pareciam uma “representação teatral” (Shintei)...

Contudo, o Kata Chintei é escrito com outros Kanji e possui outros significados:
  • 鎮定 [ちんてい] (chintei) – supressão, proibição, abolição, repressão.
Nota: Existem outros significados para o Kata Chintei, pois os Kanji acima apresentados não são a única forma de escrever o nome do Kata. Porém, como o assunto aqui é pronuncia e não significados o que apresento é suficiente para o entendimento de todos.

Outro detalhe (para quem ainda não percebeu) é que em japonês qualquer palavra que termine em “ei” é pronunciada “ee”.

Alguns exemplos:
  • Seiden-kai pronuncia-se “seeden cái”;
  • Sensei pronuncia-se “sensee”,
  • Shitei pronuncia-se “xitee”.

Curiosidade 3: Sobre artigos, gênero e plural

Antes de comentar qualquer coisa, vou “ajustar” alguns conceitos básicos...

A maioria dos ocidentais quando escreve livros sobre Artes Marciais teima em escrever as palavras japonesas no plural: “Senseis”, “Senpais”, “Kōhais”, etc... (na realidade, nada mais fazem do que aplicar regras da Língua Portuguesa... na Língua Japonesa).

Já vi discussões acirradas do tipo “A forma correta de se referir as formas de Karate é os Katas”… a que outros contestavam… “Não! O correto é as Katas...”

Analisemos alguns fatos (pois eles me agradam e não deixam qualquer dúvida) para que possamos saber quem está correto:
  • Em japonês não há artigos (o, a, os, as, um, uma, uns, umas);
  • Em japonês não há gêneros (masculino ou feminino);
  • Em japonês não há plural ("s" no final das palavras).
Sendo assim, se não há artigo, gênero e plural... “os” ou “as” é indiferente. Agora… “Senseis”, “Senpais”, “Kōhais”, “Kihons”, “Katas”, etc… isso não existe!

Assim, a forma correta de escrever, por exemplo, a palavra Kata (mesmo que no plural) é:

Os Kata ou as Kata, sem o “s” no final (esta afirmação também é válida para os demais termos japoneses que aparecem neste “Post”... e, na realidade, para todas as palavras japonesas).

Muitos outros exemplos de erros comuns poderiam ser aqui citados, mas acredito que isto seja suficiente para chamar a atenção para a importância da pesquisa séria e do estudo comprometido antes de apresentarmos termos japoneses em nossos trabalhos.

Osu!
Denis Andretta.

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