Conversando sobre artes marciais japonesas - Parte 10

Olá!

(^_^) 

Tarefas do dia a dia em grande quantidade... então não estou conseguindo fazer as postagens da forma que queria... 

Mas “não tá morto que peleia” (ditado gaúcho). 

Via das Mãos Vazias, Vias Marciais Antigas, Via Para a Unidade do Ser... são Vias Marciais... são Dō... e, por sua vez, são modos de vida diferentes, do ponto de vista organizacional e técnico, que têm o mesmo fim: “criar um cidadão/cidadã útil a sociedade” em que está inserido. 

Simples assim... sem mística, sem transcendência, sem tretas! 

Os estilos (Ryū), os grupos (Ha), as escolas (Kan) e as associações (Kai) têm a função de levar a cabo esta missão... 

Entendendo os objetivos e as formas de trabalho que são utilizadas para a sua concretização, precisamos compreender que em se tratando de artes marciais japonesas é importante conhecer conceitos, pois eles explicam a forma de pensar da sociedade japonesa e deixam claros os graus de importância que as coisas devem ter... 

Para falar neste tema, decidi começar com alguns conceitos sobre os quais muita gente fala... mas que pouca gente entende, de fato. 

Então... vamos, lá! 

Começo com “Bunbu-ichi”... que trata da “literatura” e do “militarismo” como sendo elementos complementares e que é um conceito muito comum dentro das artes marciais japonesas. 

Para as “escolas de guerra”, a expressão Bunbu-ichi era dividida da seguinte maneira: 
  • 文 [ぶん] BUN (bún) – Literatura; 
  • 武 [ぶ]  BU (bú) – Militar, bélico, marcial; 
  • 一 [いち] ICHI (itchi)– O número um. 
Buscando um sentido próximo ao literal, Bunbu-ichi pode significar: 
  • “Literatura e Militarismo são como uma única coisa”. 
  • “Literatura e Belicismo são como uma única coisa”. 
  • “Literatura e Marcialidade são como uma única coisa”. 
Contudo, a ideia por trás desta expressão é: 
“A teoria e a prática devem ser feitas na mesma proporção.” (GOULART, 2011) [...] A teoria do combate, deve ser tão importante quanto à prática do combate.” Ou seja, “estudar a arte” é tão importante quanto “praticar a arte” […]” (GOULART, 2006) 
Antigamente, nas escolas de artes marciais japonesas, era costume ter quadros pendurados nas paredes do Dōjō[1] com o conceito Bunbu-ichi inscritos, lembrando a necessidade desta união. 

Para que se entenda a importância que este tema representa dentro do Budō[2] postarei alguns trechos do texto escrito pelos Hanshi[3] Ōgata Taketora e Hamada Teshin, membros da Dai Nippon Butoku-kai[4], que foi gentilmente traduzido e enviado para mim por Joséverson Goulart[5]
“É dito há muito tempo que a pena e a espada são como as duas rodas de uma carroça e as duas asas de um pássaro. Consequentemente, elas pertencem a um único conceito de virtude universal e são naturalmente inseparáveis.  
[...] A “pena” são os meios através dos quais as pessoas governam-se a si mesmas de forma pacífica e através dos quais as pessoas cultivam e nutrem as cinco principais virtudes: benevolência, dever, lealdade, piedade filial e amor.  
A “espada”, por outro lado, são os meios através dos quais as pessoas defendem e restauram tais virtudes quando julgarem que isso é inevitável. 
[...] “A pena e a espada” são fundamentalmente os mesmos ideais filosóficos que estão em dependência direta um do outro.  
Esperamos que as pessoas que seguem o Budō desenvolvam e cultivem os seus próprios caráteres e contribuam de forma decisiva para a educação moral das suas nações”.  
É inegável que vemos na história humana o abandono da “pena” e a má utilização e exploração da “espada”. Manter “a pena e a espada” como uma virtude inseparável para a criação de uma grande sociedade pacífica é indispensável e vital para as gerações futuras” (ŌGATA; HAMADA). 
Analisemos, por partes, o que dizem os mestres japoneses, Ōgata Taketora e Hamada Teshin, substituindo as palavras “pena” por “teoria” e o termo “espada” por “prática”, pois é disso que eles estão falando... 
“[...] A “teoria” e a “prática” são como as duas rodas de uma carroça”, “[...] a “teoria” e a “prática” são como [...] as duas asas de um pássaro”. [...] Pertencem a um único conceito [...] e são [...] inseparáveis”. 
Não precisa ser um Albert Einstein para saber que uma carroça não anda com uma só roda e que um pássaro não voa com uma só asa, por isso quem separa teoria e prática impossibilita o avanço do conhecimento. 
“[...] A “teoria” são os meios através dos quais as pessoas governam-se a si mesmas [...] A “teoria” são os meios através dos quais as pessoas [...] cultivam e nutrem as [...] virtudes: benevolência, dever, lealdade, piedade filial e amor." 
Seguem afirmando que a teoria, que o estudo, que a literatura fornece meios para que a pessoa possa governar a si mesma. Que a teoria, que o estudo, que a literatura são as fontes das quais se tira o “alimento” para nutrir as virtudes. Mencionam as cinco principais virtudes, porém há muitas outras que podem e devem ser cultivadas. 
“A “prática” [...] são os meios através dos quais as pessoas defendem e restauram [...] virtudes [...].” 
A prática está explicita através das técnicas existentes dentro dos diversos métodos de combate, meios estes que somente se justificam se estiverem a favor da justiça e do restabelecimento das virtudes, fato que não é nenhuma novidade para os Karatedōka[6], pois há muito tempo o mestre Gichin Funakoshi[7] afirma que o “Karatedō é um assistente da justiça”. 
“[...] A teoria e a prática” são [...] ideais filosóficos [...] estão em dependência direta um do outro.” 
A mensagem é clara... teoria e prática são interdependentes. Porém, aqui acredito ser necessário retomar um conceito que se encontra desgastado em nossos dias... a palavra "filosofia". 
“Do grego “philosophia”, que significa “amor pelo conhecimento” ou “gosto pela sabedoria”.  
[...] A palavra filosofia chegou através do latim “philosophia”, que se originou a partir do termo grego homônimo, formado pela junção das palavras “philein”, que significa “gostar muito” ou “amar; e “sophis”, que quer dizer “sábio” ou “o que estuda”.  
Os gregos antigos usavam a palavra “philos” como sinônimo de "gostar de algo", "sentir atração por algo", "nutrir amizade ou amor por alguma coisa". [...] “Sophia”, por sua vez, quer dizer “o conhecimento”, “a sabedoria”.  
Portanto, filosofar é amar e buscar todas as formas de sabedoria e conhecimento.” (http://www.dicionarioetimologico.com.br/filosofia/
Sendo assim, quando dizem que a teoria e a prática são “ideais filosóficos” estão dizendo que são meios para a busca da sabedoria, formas para que seja possível aproximar-se da perfeição humana. 
“Esperamos que as pessoas [...] desenvolvam e cultivem os seus [...] caráteres e contribuam [...] para a educação moral das suas nações.” 
Destacam, ainda, que a principal característica que deve apresentar um artista marcial é a busca da formação do caráter. E para que esta ênfase no desenvolvimento do caráter? Para que o praticante se torne uma pessoa de moral que possa contribuir com sua sociedade. 
“É inegável que vemos na história humana o abandono da “teoria” e a má utilização e exploração da “prática”. Manter “a teoria e a prática” como uma virtude inseparável [...] é indispensável e vital [...].” 
Para finalizar, os mestres afirmam ter consciência de existem alguns que deixam de lado as questões teóricas e que, da mesma forma, há aqueles que usam a prática de forma errada, inclusive para explorar os demais e, justamente por isso, voltam a afirmar que manter teoria e prática unidas é algo muito importante. 

Usei aqui as palavras de dois membros da Dai Nippon Butoku-kai para fazermos uma reflexão sobre a necessidade de dar o mesmo peso, a mesma medida para teoria e prática. Contudo, em nível de transmissão dos conhecimentos marciais japoneses antigos, há tantas formas de dizer a mesma coisa que tais ensinamentos deveriam estar tão ligados às nossas vidas como o próprio ato de respirar. 

Eis alguns exemplos onde isso ocorre: 

文武一道 BUNBU ICHIDŌ [ぶんぶいちどう] 
“As artes literárias e as artes marciais: um único caminho”. 

文武一徳 BUNBU ITTOKU [ぶんぶいっとく] 
“As artes literárias e as artes marciais: uma única virtude”. 

文武一致 BUNBU ITCHI [ぶんぶいっち] 
“As artes literárias e as artes marciais de forma consistente”. 

文武之道 BUNBU NO MICHI [ぶんぶのみち] 
“A via das artes literárias e das artes marciais”. 

文武両道 BUNBU RYŌDŌ [ぶんぶりょうどう] 
“Ambos os caminhos: as artes literárias e as artes marciais”. 

文武不岐 BUNBU FUKI [ぶんぶふき] 
“As artes literárias e as artes marciais são inseparáveis”. 

文武併進 BUNBU HEISHIN [ぶんぶへいしん] 
“As artes literárias e as artes marciais avançam juntas”. 

文武神聖 BUNBU SHINSEI [ぶんぶしんせい]
“As artes literárias e as artes marciais são sagradas”. 

武練文修 BUREN BUNSHŪ [ぶれんぶんしゅう]
“Treinar as artes marciais e estudar as artes literárias”. 

経文緯武 KYŌMON IBU [きょうもんいぶ] 
“As artes literárias são a longitude e as artes militares são a latitude”. 

Estas, entre tantas outras expressões (e são mesmo muitas), indicam a mesmíssima coisa… e são apenas resumos para relembrar o que há muito já foi, é e será dito a nível realmente tradicional... quer gostem ou não, quer aceitem ou não, quer acreditem ou não... os instrutores, os professores e os mestres modernos. 

Dia após dia, mês após mês, ano após ano, bate-se na mesma tecla... mas, para alguns, mesmo com esta insistência descrita nos clássicos militares, há coisas que são convenientemente omitidas. 
“Infelizmente, no ensino marcial contemporâneo, existem instrutores que afirmam que “estudar Karatedō[8] não importa, o que importa é combater”. O que estes instrutores não veem é o óbvio diante dos seus narizes.  
Se tradicionalmente a teoria e a prática devem ser treinadas como se fosse uma única coisa, então, o instrutor que só está interessado na parte prática do Karatedō só sabe 50% do que deveria ser a totalidade da arte. E se não sabe 100% de uma matéria que se propõe a ensinar, está de fato em posição de “ensinar”? 
Honestamente? Não! Porque, dado o alcance do seu conhecimento, não é capaz de responder ou tem poder de argumentação diante de questões literárias a respeito da arte que, como instrutor, deveria dominar a 100%. 
Assim, para felicidade de determinados instrutores, onde só se justifica a prática do Karatedō e o “estudo” da arte está fora de questão, conceitos teóricos como “Bunbu-ichi” não foram muito difundidos aqui no ocidente; razão pela qual estes mesmos instrutores ainda podem dizer coisas incoerentes tal como: “Karatedō só tem a ver com suar o Karatedōgi[9]….” (GOULART; 2011) 
Dentro das artes marciais, a teoria e a prática deveriam ser inseparáveis, pois quando falta um deles o treinamento é sempre parcial. A teoria, além de transmitir os conceitos corretos, está relacionada às questões internas do ser humano através do conhecimento, do sentimento e da prática das virtudes. 

Trabalhar na formação de um indivíduo com um caráter sadio que, através de seus pensamentos, seus sentimentos e suas ações, possam gerar benefícios para toda a sociedade… este é o objetivo primordial dos Budō… simples assim! 
“Muitas vezes, ao ver o estado das coisas no mundo das artes marciais japonesas em geral, pergunta-se de que adianta o esforço dos mestres antigos japoneses em insistir na transmissão de que «o “treino” é tão importante quanto o “estudo”», quando é visível que a esmagadora maioria dos instrutores, de todas as graduações e artes marciais, ignoram tal ensinamento.  
Sem tentar “tapar o sol com a peneira”, continua-se a achar que o “treino” é mais importante do que o “estudo”. E quais seriam os motivos para essa má interpretação das artes marciais japonesas?  
[...] Não adianta criticar quem segue o que os mestres japoneses dos tempos antigos deixaram como legado… deve-se seguir os seus ensinamentos, tanto técnicos como morais e, desta forma, contribuir para o fortalecimento ético da arte que se pratica, seja ela qual for...  
A isso, ao treino e estudo como uma única coisa, chama-se Budō!” (GOULART, 2011) 
Em um mundo marcial aonde muito se pratica e pouco se estuda (ou mesmo não se estuda)… aonde vemos distorções, negligências, comércio, etc… será que se pode falar em Budō? 

Acredito que antes de se conseguir cumprir o mais simples e básico dos conceitos que este termo abarca... que é a união entre a prática e a teoria... nem mesmo deve ser mencionado o termo Budō, sob o risco de se parecer desonesto... mentiroso. 

Para encerrar de vez a questão, e reforçar tudo que foi dito até aqui, vou recordar um dos 20 ensinamentos do mestre Gichin Funakoshi, descrito no Nijūkun[10]. Menciono tal instrução porque é bem capaz que surja alguém para dizer que tais coisas não se aplicam ao Karatedō: 
“一、常に思念工夫せよ。
Hitotsu, Tsune ni shinen kufū seyo.
Importante! Estudar, praticar e aperfeiçoar-se sempre.” 
Denis Andretta 
Porto Alegre/RS 
20 de novembro de 2018 

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Notas:

[1] Dōjō [道場] - Lugar (onde se pratica o) Caminho. 
[2] Budō [武道] - Via ou caminho marcial, militar. 
[3] Hanshi [範師] – Os ideogramas literalmente significam: “exemplo/modelo + mestre/perito/professor”, somando-se estas ideias, fica-se com a noção de algo como “mestre”. 
[4] Dai Nippon Butoku-kai [大日本武徳会] - Associação das virtudes marciais do grande Japão. 
[5] Para conhecer o trabalho realizado pelo Sr. Joséverson Goulart pode visitar o Blog: http://jojimonogatari.blogspot.com/
[6] Karatedōka [空手道家] – Especialista em Karatedō. 
[7] Gichin Funakoshi [義珍船越] - *10/11/1868 – †26/04/1957, mestre de Karatedō, nascido em Shuri, Okinawa, fundador da escola Shōtōkan. 
[8] Karatedō [空手道] – Via, Caminho das Mãos Vazias. 
[9] Karatedōgi [空手道衣] – Roupa para o Karatedō. 
[10] Nijūkun [二十訓] – As vinte instruções (de Gichin Funakoshi).

Destaque

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