Coluna semanal: Um poema...



Kanji: 

すべて貴方の手元にあります。 
悪と戦うため龍の力の元に貴方の中に表れてくる。 
力と希望を合わせ伝説の戦士の夢と侍の心。 
伝説の戦士の拳にプライドと豊かな心正義のため眠っている力を引き出す。 

Rōmaji: 

Subete anata no temoto ni arimasu. 
Aku to tatakau tame ryū no chikara no moto ni anata no nakani arawarete kuru. 
Chikara to kibō wo awase densetsu no senshi no yume to samurai no kokoro. 
Densetsu no senshi no kobushi ni puraido to yutakana kokoro seigi no tame nemutte iru chikara o hikidasu. 

Tradução: 

Tudo está ao seu alcance. 
Para combater com o mal[1], a força do dragão nascerá dentro de ti. 
A união da força física e a esperança, do sonho do guerreiro lendário[2] e o espírito do Samurai. 
Os punhos do guerreiro lendário trazem um coração ilimitado e orgulhoso que desperta a força adormecida da Justiça. 

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Tradução

Joséverson Goulart. 

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Notas

[1] "Para combater com o mal" - tem o sentido de "contra o mal". 
[2] No lugar de "lendário" eu colocaria "Tradicional"...

Coluna semanal: O verdadeiro significado da faixa preta

Atualmente, no ocidente, de uma forma geral, a faixa preta é vista como um “grande nível”, como o “resultado do aprendizado para lutar”, como “uma recompensa outorgada aquele que sacrificou muitas horas da sua vida disciplinando sua mente e fortalecendo seu corpo, como “um símbolo de perícia” (NISHIYAMA, Hidetaka, 2008). 

Contudo, estas formas de pensar colocam a faixa preta como um objetivo do treinamento marcial... nada mais longe da realidade. Tais conceitos, distorcidos em nossa sociedade, fazem com que os ocidentais sejam induzidos ao erro no que diz respeito ao verdadeiro significado da faixa preta. 

A faixa preta nunca foi, não é nem nunca será um fim a ser atingido. E quem diz que atingir a faixa preta é o objetivo do treino marcial está completamente errado ou, se não estiver errado, não está dizendo a verdade. 

Em primeiro lugar, vamos tentar entender o sistema de faixas pretas antes de atribuirmos importâncias indevidas a cada graduação. 
No Japão nem tão antigo assim, o sistema de graduação dividia-se em faixas branca, marrom e preta. A faixa branca era para iniciantes, a faixa marrom para quem já dominava o básico e a faixa preta para quem se iniciava na arte… é por isso que a primeira faixa preta recebe o nome de Shodan, literalmente “nível inicial”. E por que “nível inicial”? Porque era na primeira faixa preta que uma pessoa iniciava seu estudo e entendimento efetivo de uma arte marcial. A expressão Shodan indica, de uma forma simples, que o estudante domina os fundamentos da arte e agora está preparado para receber um treinamento mais avançado. (GOULART, 2008)
Analisando o que foi dito, sem muito esforço mental, conclui-se que se estamos “iniciando” na arte quando recebemos o Shodan, definitivamente ele nunca será um “fim” a atingir. 

Este conceito errado de “faixa preta como um fim a atingir” é que leva um número elevado de praticantes a desistir de suas artes quando atingem o “primeiro Dan”, pois atingiram o seu fim, tornaram-se faixas pretas e agora podem relaxar no treino, quando na realidade é neste ponto que deveriam estar “iniciando” na arte. 


O mestre Nishiyama afirma, acertadamente que 
Inicialmente o sistema de graus (Dan) foi estabelecido como uma série de níveis com os quais o estudante podia avaliar o seu progresso. Esta escala de valores tem provado a sua eficácia como grande motivador do estudante, mas também tem originado alguns problemas.  
Em primeiro lugar existe internacionalmente uma grande disparidade de critérios. Um sistema de graduação universal deveria ser formalizado da mesma maneira que um centímetro é igual a outro em qualquer lugar do mundo.  
É preciso também compreender que esta escala de valores consiste em examinar as reações humanas, e devido às diferenças existentes em cada pessoa é difícil estabelecer regras únicas.  
O Jūdō e o Kendō têm suas regras internacionais para avaliar, e isto se deve ao fato de suas origens são exclusivamente japonesas e estas regras nasceram junto com cada uma destas artes marciais.  
O Karatedō ao contrário tem várias escolas diferentes, cada uma das quais possuem suas particularidades e seus sistemas de exame separados.  
Quando o Karatedō alcançou uma dimensão internacional, vários países receberam estilos diferentes cada um deles com suas próprias regras e isto permitiu que indivíduos sem escrúpulos criassem suas próprias organizações outorgando a faixa preta a estudantes não qualificados que por sua vez decidiram abrir suas próprias escolas e entregar suas próprias faixas pretas ao mesmo tempo em que buscavam promover-se para obter benefícios econômicos.  
O resultado final é que muitos faixas pretas constituem um mau exemplo e produzem uma má imagem do Karatedō.  
Muitas pessoas dizem que assim como existem as casas de câmbio para as trocas de moedas, deveria haver centros de reavaliação onde os faixas pretas pudessem ser reavaliados, embora a lista dos candidatos alcançasse a grossura de uma lista telefônica. 
Hoje em dia vê-se uma “corrida aos Dan”… todos querem mais e mais Dan, por isso é comum encontrarmos por aí academias onde se outorgam faixas pretas em um curto período de tempo de treinamento com nítidos objetivos comerciais. Nestes locais, os “responsáveis” são conscientes de que no pensamento ocidental a faixa preta é vista como “um fim a atingir” e que todos querem se graduar rapidamente em detrimento do estudo e entendimento das artes que praticam. Assim surgem aqueles programas fantásticos, e bem pagos, de “torne-se faixa preta em um ano”. 

Exemplo disso são pessoas portadoras de muitos Dan que não sabem o significado de conceitos, tais como: Shugyō, Bunbu-ichi, Ikken-hissatsu, Zanshin, etc… o que só demonstra que a faixa apenas é um marco de “estudo”, mas não indica o conhecimento efetivo. 

Já vimos afirmações do tipo: “Em um clube sério, a faixa preta se alcança após se ter de 3 a 5 anos de treinamento assíduo e duro sob uma orientação competente”. Não obstante, não há como precisar um período de treinamento específico para receber uma faixa preta, pois cada pessoa é única e, da mesma forma, tem seu tempo próprio para o aprendizado. Assiduidade, treinamento duro e orientação competente são elementos subjetivos, pois posso frequentar todas as aulas e ainda assim não conseguir progredir devido a uma série de coisas, posso treinar duramente e ainda assim este treinamento estar errado ou mal direcionado, além disso, se estou iniciando a prática de uma arte marcial não tenho parâmetros formados para saber se a orientação que recebo é competente... 

Kenwa Mabuni1889-1952
Sendo assim, falar sobre um número aceitável de anos e em prática “assídua e dura”, quando na realidade estes “tantos anos” são utilizados apenas como educação física ou treino desportivo e não utilizados no aprendizado real do sentido da faixa preta e do verdadeiro objetivo do treino de uma arte marcial japonesa... não passa de “conversa mole” para iludir pessoas que não tem a mínina noção sobre estes assuntos. 

Em forma de conclusão, a faixa preta é (ou pelo menos deveria ser) atribuída como um símbolo de alguém que se iniciou em uma arte, em nosso caso específico o Karatedō, e está começando no estudo do mesmo... nada mais. O sentido que deveria ser entendido neste ponto do treinamento é o mesmo sentido que tínhamos quando amarramos pela primeira vez a faixa branca na cintura: “É hora de começar a treinar...” é disto que o mestre Kenwa Mabuni estava falando quando em seu Godōshin afirmava que o "importante" é "não esquecer a intenção original", ou seja, ter sempre "determinação".

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Referências

GOULART, Joséverson. Sobre o verdadeiro significado da faixa preta. Disponível em: <http://groups.msn.com/ShinseiKaiShito-RyuKarate-Do/>. Acesso em: 2 de Janeiro de 2008. 

NISHIYAMA, Hidetaka. Significado da faixa preta[2]. Disponível em: <http://www.geocities.com/karate_shotokan_br/significado.htm>. Acesso em: 2 de Janeiro de 2008. 


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Notas

[1] Mestre Hidetaka Nishiyama. 
[2] Texto traduzido a partir do original encontrado no site da Federação Espanhola de Karate-do Tradicional.

Coluna semanal: A ética dentro das artes marciais


No Karatedō há um conjunto de preceitos que está condensado no que conhecemos como Dōjōkun. Historicamente, estes princípios consistem em cerca de cinco normas ou regras que devem guiar os passos de todos os praticantes dentro da longa via que esta arte marcial representa. 

O Dōjōkun vem da China, há muito tempo, e suas origens perdem-se na poeira do tempo... querer afirmar quem foi o primeiro a utiliza-lo em Okinawa é simplesmente impossível. 

O Dōjōkun pode variar de escola para escola, não há uma padronização. Existem muitas variações do Dōjōkun. 

Vejamos algumas:
  • As instruções do Dōjō Shitō-ryū. 
    • Importante, não esquecer a intenção original – “Determinação". 
    • Importante, não negligenciar a etiqueta – “Moral". 
    • Importante, não negligenciar o esforço – “Desenvolvimento". 
    • Importante, não perder o bom senso – “Discernimento". 
    • Importante, não perturbar a harmonia - “Paz".
  • As instruções do Dōjō Shōtōkan. 
    • Importante, esforçar-se para desenvolver o caráter. 
    • Importante, defender o caminho da verdade. 
    • Importante, nutrir o espírito de esforço. 
    • Importante, considerar importante a cortesia. 
    • Importante, proibir o ímpeto violento. 
  • As instruções do Dōjō Gōjūkai. 
    • Importante, ter orgulho por estudar a "Via do Gōjū". 
    • Importante, ser educado / cortês. 
    • Importante, esforçar-se para desenvolver a simplicidade e o vigor físico. 
    • Importante, nutrir o espírito de união e convívio (fraternidade). 
    • Importante, respeitar a ética e as tradições guerreiras do antigo Japão. 
    • Isto é tudo! 
  • As instruções do Dōjō Wadō-ryū. 
    • Importante, considerar a cortesia importante. 
    • Importante, ser sério em tudo que fizer. 
    • Importante, treine com o corpo e a alma e refine constantemente as técnicas. 
    • Importante, esforce-se para desenvolver o caráter. 
    • Importante, estude (pesquise) o Caminho da paz. 
  • As instruções do Dōjō da Associação de Gōjū-ryū Karate-dō de Okinawa. 
    • Importante, ser humilde e considerar a cortesia importante. 
    • Importante, no treino aplicar a força física de forma moderada. 
    • Importante, pesquisar e treinar de forma séria. 
    • Importante, use a rapidez à vontade, mas de forma calma e tranqüila. 
    • Importante, considere a higiene importante. 
    • Importante, viva uma vida modesta (simples). 
    • Importante, não seja orgulhoso. 
    • Importante, continue a prática sem fraquejar ou desistir. 
Embora os ensinamentos das diversas escolas apresentem ligeiras diferenças, todos mantêm os princípios de cultivo de virtudes. 

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Referências

ANDRETTA, Denis Augusto Cordeiro. Minhas reflexões: A ética dentro das Artes Marciais. Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Fevereiro de 2006.

Coluna semanal: As Artes marciais e o caminho psicossomático

(...) O ser humano é um pensamento em atividade e, ao atuar, move-se. Ao mover-se, se expressa. 

As Artes Marciais são Movimento e, por tal razão, podem ser uma possibilidade de expressão. É eficaz para evitar que a nossa agressividade não se transforme em patologia, e desta forma poder orientá-la para o criativo permitindo, assim, que o ser humano realize movimentos tanto belos como harmônicos. 

Num mundo tão convulsionado e hostil, o ser humano é vítima de suas limitações e seus medos. As Artes Marciais podem ser um excelente meio de corrigir atitudes negativas. A vida quotidiana está cheia de conflitos que o ser humano deve enfrentar diariamente. As Artes Marciais capacitam-no para enfrentar e resolver situações de conflito. 

(...) Os alunos voltam sua atenção para a técnica que pretendem aprender, e por esta razão os seus movimentos trazem à luz o seu verdadeiro caráter, bem inibido ou extrovertido, referência esta que se manifesta numa simples postura. A postura em pessoas com caráter inibido se expressa como: falta de confiança em si mesmo, uma atitude reprimida perante o mundo e a vida, problemas de relacionamento e comunicação, etc. Neste caso os movimentos são curtos, débeis, carentes de equilíbrio. O contrário acontece com caracteres extrovertidos. Estes expressam arrogância, supervalorização de si mesmo, atitude dominante e agressiva, egocentrismo, etc. Neste caso os movimentos são fortes, amplos, compridos, demasiadamente rígidos, posturas firmes, embora deformadas, etc. 

O professor, por meio de um treino correto, pode conseguir um equilíbrio mecânico que, sem dúvida, influirá na atitude do aluno. 

(...) Os movimentos, bem sejam de postura ou de coordenação, ou de qualquer outro ato motor, passam por uma seleção dos elementos do esquema corporal, ou seja, aprender a movimentar os grupos musculares corretos de maneira independente em relação aos segmentos vizinhos. Isto só é possível mediante a constante repetição da experiência motriz consciente. Quando se domina a técnica, já se está em condições de disponibilidade para ser integrada ao conhecimento prático, ou seja, à aplicação. 

No combate nas Artes Marciais podemos observar que os movimentos fluem de forma constante e veloz. Ambos tentam obter vantagens circunstanciais que acumuladas, somem pontos no resultado final. Cada um dos combatentes dispõe de táticas que conformam a estratégia, previamente planejada. Podemos obter dados valiosos sobre a personalidade de ambos os sujeitos. 

Há quem costuma se recolher de maneira constante, como se tivesse dificuldades para enfrentar situações de risco. Ou há aqueles que, diante dos espaços que lhes oferece a defesa do adversário, lhes custa definir, tal é o caso dos indecisos e dos que fogem do conflito. Ou aqueles excelentes lutadores, que nunca chegam a campeões. A quem lhes aflora o medo à responsabilidade de ser o número um. Também aqueles que, ante a um adversário de inferior capacidade, não planejam o combate, mesmo tendo tudo a favor... eis aqui a falta de fé em si mesmos. Há certas circunstâncias na luta, onde a dúvida nos faz vacilar, fazendo-nos perder grandes oportunidades. Há quem pelo contrário, humilha o adversário e o castiga mais que o devido. Aqui o sujeito demonstra uma supervalorização de si mesmo, com perturbações no egocentrismo e agressividade nas atitudes. Os que se ofendem quando recebem um golpe, mesmo que não tenha sido intencional, estão mostrando um mal entendido "amor próprio", ao mesmo tempo em que demonstram problemas afetivos. Os que se inibem durante a luta, são aqueles extremamente tímidos e carentes de caráter. 

Os que têm dificuldade em coordenar os movimentos, a fim de poder-se harmonizar com o adversário, com a finalidade de evitar quaisquer circunstâncias que possam por em perigo à integridade física de ambos os contundentes, também tem problemas para comunicar-se com seus semelhantes e no mundo das relações.

Numa prática bem orientada pedagogicamente, o praticante aprende a conhecer seus limites e, consequentemente, a distanciar-se cada vez mais deles. Compreende as necessidades do seu corpo porque se acostuma a dialogar com ele e atender às suas necessidades básicas. 

O trabalho em grupo lhe ajuda a solucionar seus problemas afetivos e de comunicação, pois sendo o grupo solidário com esforços individuais, solidariza-se na busca de objetivos comuns. Isto contribui na conquista do equilíbrio corpo-mente-meio ambiente exterior. 

Aprende a assumir as suas limitações e, por acréscimo, superá-las com força de vontade e perseverança. 

A agressividade, tomada como uma herança da sociedade em que vivemos, é canalizada de uma forma mais criativa, pois, ao ter a oportunidade de expressar-se sem preconceitos, se libera dos conflitos pessoais, conseguindo assim, um autocontrole consciente e carente de toda e qualquer inibição, desenvolve o caráter, resultando num ser social moral e íntegro. E, sobretudo, o praticante aprende a ser seguro de si, equilibrado, sensível à beleza e dono de seu próprio destino. Enfim, aprende a ser autêntico. 

De alguma forma, sempre estamos procurando melhorar em algum sentido: trabalho, estudo, imagem, etc... Quando um indivíduo caminha, junto com seu corpo, o ser humano também leva suas alegrias, suas angústias, seus êxitos e fracassos, seus triunfos e suas frustrações. O ser humano angustiado costuma andar de maneira silenciosa, com a cabeça baixa e os ombros caídos. Contrastando com o passo firme, harmonioso e decidido de um ser humano seguro de si mesmo. As Artes Marciais, pela sua estrutura e metodologia de ensino, provê uma série de técnicas que o estudante vai assimilando de maneira suave e harmoniosa. Estas técnicas vão enriquecendo o indivíduo em sua capacidade de expressão. Isto, somado à inspiração, origina a criatividade de maneira espontânea diante de estímulos determinados, como os que podem se originar num combate. 

O combate é a máxima expressão das Artes Marciais. Nele é onde se põe em jogo, todo o aprendido, permitindo-se a expressão em toda sua capacidade criativa. É algo elegante e mortífero ao mesmo tempo. É uma circunstância limite porque nela se colocam em jogo valores relacionados com a vida e a morte. A ação impulsiona o ser humano a manifestar sua capacidade analítica a fim de superar situações de conflitos. Então aflora o "Eu Real", porque descobrimos que nos encontramos a sós com a nossa circunstância. Não podemos contar com ninguém, salvo com a nossa capacidade de aplicar o que sabemos. Mas a luta não se trava somente com nosso adversário circunstancial, porque, também ali, aparecem aqueles inimigos que sempre nos acompanham: nossos medos, nossas angústias, nossas limitações. Surpreender-nos-íamos ao comprovar que, a um determinado ataque, vários indivíduos podem reagir de maneiras totalmente diferentes. Cada um reagirá de acordo com a sua realidade interior, ou sua particular visão de uma realidade. 

No entanto, é no combate onde afloram dois tipos de sentimentos, a saber: 

A respeito de si mesmo: 
  • Positiva: confiança em si, segurança, valorização, etc. 
  • Negativa: inibição, insegurança, ansiedade, temor ao fracasso, etc. 
A respeito do oponente: 
  • Positivo: domínio da situação, firmeza, oposição aos ataques, decisão, etc. 
  • Negativa: submissão, sentido de derrota, dependência, complexo de inferioridade, covardia, etc. 
Alguns indivíduos mostram um domínio pleno, em qualquer circunstância. Impõem seu ritmo e mandam na ação. Estes indivíduos são, por regra geral, aqueles que, de alguma maneira, têm descoberto e interpretado a linguagem do corpo. Então, o combate é uma leitura da expressão do adversário que e um gesto ou em uma postura, capta, por antecipação, o que o adversário está planejando fazer. 

Aquele que aprende a dominar seu corpo e a expressar-se com ele pode converter-se num verdadeiro artista. 

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Referências

ALVEZ, Elismar José. As Artes Marciais e o Caminho Psicossomático. Instituto Bodhidharma do Brasil. Disponível em: <http://www.bodhidharma.com.br/portugues/index.htm>. Acesso em: 15 de Maio de 2005.

Coluna Semanal: A contribuição dos Kata do Karate na saúde e qualidade de vida de grupos populacionais

Resumo do artigo “A contribuição dos Kata do Karate na saúde e qualidade de vida de grupos populacionais”


Introdução

A palavra Kata vem do japonês, 型 ou 形, e (em ambos os casos) significa forma, modelo, (molde, padrão). Segundo Funakoshi (1975, p. 21), (é um) “exercício formal”. Além disso, caracteriza um estilo [...] (de Karate).

O Kata é a essência de uma arte marcial (e) deve ser sempre mantida nas suas projeções, mesmo que, no decorrer do tempo, as coisas mudem com o modernismo. [...]


Kata: um Meio Didático.

Os Kata têm a função de filtrar [...] o que deve ser melhorado, ou seja, é através da execução de um Kata, em períodos diferentes, que notamos o quanto (melhoramos... ou não) [...].

[...] O praticante de Kata deve ter (a) compreensão dos significados de cada gesto desenvolvido; assim, há uma interação do movimento com as capacidades físicas expressadas pelo corpo. [...]

[...] Podemos compreender o movimento humano, gerado pelo Kata, como consequência da interação entre os músculos e as forças externas impostas [...].

[...] Os Kata são organizados por linhas gráficas, chamadas de 演武線, Enbusen, que literalmente significa “linha de execução”, e que fazem com o que o atleta execute a sequencia de movimentos do Kata e retorne [...] (a um) ponto (próximo ao ponto) de partida.

[...] Toda produção de movimento, gerado pelo Kata, caracteriza uma batalha imaginária onde os oponentes desferem (diversos tipos de) golpes [...].

A prática do Kata, sendo imaginada desta maneira, produz uma técnica eficaz. E, além disso, devemos treinar os Kata com todos os recursos das capacidades físicas e dos fundamentos, pois assim o indivíduo transforma o corpo em uma arma [...] que, ao final, (quando feita de forma correta e moderada), traz resultados de longevidade com qualidade de vida.

[...] Os Kata se dividem em básicos e avançados. Os Kata básicos trabalham a movimentação para frente e para trás, esquerda e direita. Os Kata avançados inserem além de esquerda e direita, para trás e para frente, giros, rotações, saltos, avanços e recuos (FUNAKOSHI, 1988).

[...] A prática constante de um mesmo Kata representa o desenvolvimento das técnicas, das capacidades físicas e do conhecimento pleno sobre o assunto. O conhecimento eficaz de um Kata avançado espelha-se sobre todos os outros Kata.

[...] Alguns pontos importantes [...]:

  1. A harmonia entre o movimento do Kata e o seu significado deve permanecer constantemente. Com isso, os gestos do Kata tendem a ganhar toda a energia produzida pelas capacidades físicas, sendo intercaladas pela respiração;
  2. Deve-se levar em conta a linha gráfica do Kata (Enbusen), pois foi desenvolvido segundo uma técnica que inclui o desenvolvimento das capacidades físicas e dos fundamentos;
  3. Ao desenvolver os movimentos de um Kata, procure compartilhar as contrações e descontrações, pois estas habilidades motoras dão ritmo para o Kumite, ou seja, para a luta real. [...]


Kata: Aptidão Física Relacionada à Saúde

[...] As evidências científicas relatam que o desenvolvimento da aptidão física aumenta a longevidade, afastando os fatores de risco como a hipertensão, a obesidade e o sedentarismo, gerando saúde e uma maior qualidade de vida.

[...] Com a prática dos Kata, de 3 a 5 vezes por semana nas aulas de Karate, os indivíduos melhoram seus níveis de aptidão física, e sua classificação em relação à atividade física habitual, mudando a sua categoria de inativo para moderadamente ativo, ou para ativo, ou para muito ativo. Segundo Nahas (2001), a faixa ideal seria o nível ativo.

[...] Também se pode afirmar que devem ser realizadas atividades físicas paralelas à prática do Karate, com a intenção de melhorar os níveis da Aptidão Física Relacionada à Saúde.

Outra perspectiva de saúde que a prática das atividades relacionadas ao Karate proporciona, em específico o Kata, é a contribuição para as atividades da vida diária em grupos de terceira idade.

(A) prática dos Kata [...] desenvolve hábitos posturais e auxilia o fortalecimento da musculatura. Em idosos, o fortalecimento muscular contribui para a prevenção da osteoporose e riscos de queda, gerando bem-estar geral e autonomia.
Kata: Flexibilidade e Saúde

Nieman (1999), Nahas (2001) e Achour Júnior (2002), destacam a flexibilidade como um dos componentes da Aptidão Física Relacionada à Saúde de maior importância, pois o corpo humano é interligado por ossos gerando articulações, tais como: a coluna cervical, ombro, cotovelo, antebraço, punho, quadril, tronco, joelho e tornozelo.

[...] A prática dos Kata do Karate desenvolve a flexibilidade em todas as partes do corpo humano, e com isso o indivíduo terá maior mobilidade para mover-se com facilidade.

[...] A execução correta dos movimentos dos Kata básicos e avançados proporcionam, aos alunos, movimentos em diferentes ângulos realizados pelas diferentes articulações do corpo humano.

Indivíduos que possuem uma amplitude de movimento, ou seja, uma boa flexibilidade, movem-se com maior facilidade, desempenhando maior quantidade de movimentos durante a vida, com qualidade de execução.

[...] Com relação ao desenvolvimento da arte marcial, em particular o Karate, a flexibilidade auxilia no desenvolvimento das técnicas necessárias para o bom andamento da arte, pois [...] seriam impossíveis sem a eficiência da flexibilidade. Além disso, a flexibilidade contribui para a economia de energia, proporciona melhoria para o desenvolvimento de outras capacidades e habilidades motoras (agilidade, força, velocidade).


Considerações Finais

Conforme descrito nesse artigo, muitos são os benefícios que os movimentos existentes no Kata proporcionam para crianças, adolescentes, adultos e idosos na melhoria da saúde e qualidade de vida. [...]


Referências

ACHOUR JÚNIOR, A. Exercício de alongamento: anatomia e fisiologia. Londrina: Manole, 2002.

ENOKA, R. M. Bases neuromecânicas da cinesiologia. São Paulo: Manole, 2000.

FUNAKOSHI, Gichi. Karatê-do – O meu modo de vida. São Paulo: Cultrix, 1975.

FUNAKOSHI, Gichi. Karatê-do Nyumon. São Paulo: Cultrix, 1988.

NAHAS, M. V. Atividade física, saúde e qualidade de vida. Londrina: Midiograf, 2001.

NIEMAN, D. C. Exercício e saúde. São Paulo: Manole, 1999.


Autor: Mario Molari (Docente do curso de Educação Física da Universidade Norte do Paraná (UNOPAR). Especialista em Atividade Física, Qualidade de Vida e Envelhecimento pela UNOPAR.e-mail: mario.molari@unopar.br)


Notas: Devido o fato do autor não apresentar os Kanji e não utilizar nenhum sistema de romanização para os termos japoneses, algumas palavras foram alteradas, em composição e em significado, ao longo do texto. Da mesma forma foram feitas algumas alterações/complementações para tornar o texto válido para todos os estilo de Karate.

Coluna Semanal: Professor... um trabalho difícil

ANTES DE TUDO... UM EDUCADOR

Um professor de Karatedō deve ser antes de tudo um educador, deve ser um canal de conhecimentos e deve saber transmiti-los. Não é necessário, como normalmente se pensa, que seja um grande competidor ou que tenha um alto nível (Dan), pois a único benefício real que isso traz é uma boa propaganda para atrair mais pessoas que desconhecem o tema. O que deve ser levado em conta é que tenha uma grande capacidade para transmitir conhecimentos (que por suposto deve ter) de maneira clara e progressiva, com paciência, com dedicação, com metodologia, etc...

O professor também deve demonstrar qualidades físicas e humanas, pois o aluno involuntariamente tende a imitar o professor em muitos aspectos. Este último deve conhecer bem seus alunos e descobrir o que precisa verdadeiramente dar a cada um deles dentro do Karatedō. 

O professor deve manter um ambiente agradável no Dōjō que permita que o aluno se sinta relaxado e a vontade, porém isto dentro da disciplina que uma arte marcial deve sempre ter. Um bom professor deve idealizar suas aulas de forma amena, completa, levando em conta todos os aspectos do Karatedō e a progressão desejada com relação as atividades desenvolvidas no Clube, na Academia, no Dōjō, etc...

A aula não é um curso isolado, sempre deve manter justa relação com o treinamento anterior, com o ambiente, com a época do ano... e contar com uma boa margem de improvisação devido a presença de alunos novos, alunos que precisam atenção especial, diferença nas graduações, etc...

Um bom professor nunca fará nenhum de seus alunos sentir-se ridicularizado durante os treinamentos exigindo deles técnicas que não dominam ou fazendo perguntas sobre assuntos que não tenha explicado anteriormente, porém deve sempre incentivá-los a treinar com convicção, estudar sobre a história, a filosofia, o vocabulário da arte, entre tantas outras coisas.

O professor deve ser exigente consigo mesmo não se permitindo o luxo de não saber algo... embora tenha consciência de que sempre há algo novo a aprender. Aos olhos do aluno deve parecer um exemplo [...]. 

Um bom professor deve ter discernimento para [...] nunca mudar a forma de ensinar o Karatedō, perdendo sua essência ou filosofia, simplesmente para ter um número maior de alunos visando que com isso ficar no final de cada mês com os bolsos cheios. 

Gōgen Yamaguchi, Jūdan (10º nível), enfatizava o Karatedō como ferramenta educacional, para ele o mais importante é o ser humano e sua estabilidade, afirmando que esta podia ser adquirida através da filosofia do Karatedō.


COM O ALUNO E NÃO CONTRA ELE...

Todo professor precisa ter o cuidado, ou melhor o dever, de não deixar se perder a disciplina e a etiqueta tradicional do Karatedō que há muito foi instituída pelos mestres, nunca confundindo modernidade com falta de disciplina.

Sem dúvidas, ligeiras piadas, amabilidade, etc... ajudam para que o aluno que geralmente já tenha “sofrido” com 8 horas de trabalho antes de vir para o Dōjō, desfrute, aprenda e se desenvolva de maneira natural, progressiva e voluntária. Temos sempre que estar com o aluno e não, como acontece em alguns casos, contra ele. Trata-se de administrar a aula, não de “mandar” nela. O verdadeiro espírito do Budō não se perde por isso, dentro de um certo limite é claro, pois o Caminho Marcial quando é verdadeiro e profundo se adapta as circunstâncias de cada indivíduo e portanto, de cada professor.

No entanto, o professor também deve saber acabar com a confiança excessiva que pode prejudicar o desenvolvimento da aula. Pode ocorrer, como diz o velho ditado popular, que “dando a mão, lhe tomem o braço” e isto pode acarretar situações pouco desejáveis que obrigue o professor a retirar inclusive a mão [...].

[...] Às vezes, alguns professores gostam que seus alunos passem uma temporada com outros professores, incentivando-os a praticar em outros Dōjō e inclusive outras modalidades ou estilos para que depois valorizem e vejam a diferença de tratamento que existem entre muitos.

Explicações, palestras, vídeos... são organizados e expostos com o objetivo de agradar e completar a informação [...].

[...] O certo é que faça o que fizer, o professor nunca vai conseguir agradar a todos [...].

É inegável que as aulas de Karatedō devem funcionar com uma importante dose de disciplina, como corresponde a qualquer arte marcial estruturada, bem direcionada e com diferentes categorias. A disciplina ajuda no progresso e impede que a aula chegue a ser um “caos”. Todo o protocolo, saudações, reverências, autorização para entrar ou sair do Tatami... ajudam o desenvolvimento mental através do respeito, da humildade [...]. 

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Referências:

HERRAIZ, Salvador. Profesor de Karate: um labor difícil. Disponível em: <http://www.galeon.com/jlgarcia/profesor.htm>. Acesso em: Julho de 2006.

Destaque

Feliz Dia das Mães!